quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Night Air

O som.
O acorde.
O ritmo.
São como corda para o movimento. Ainda que o corpo se resigne a mente não.
Por vezes basta uma música. A banda sonora da minha vida, os momentos que acenderam e apagaram ao longo destes poucos mas tão longos anos…
Há as músicas que lembram o passado, momentos específicos, que por elas foram acompanhados ou mesmo criados, e depois há as que apelam ao recôndito da memória, as que vasculham por entre nós e tiram da poeira caixotes que armazena-mos ao longo do caminho. Gavetas desarrumadas, folhas soltas. Sons, palavras, toques. Tudo o que passou e ficou.
Noite, música e memórias. Intoxicações etéreas, rasteiras.
E sempre de todas as vezes a vejo, a menina que se aninha ao fundo da cama, de cabelo emaranhado, pijama dois tamanhos acima, de ursinhos, ouvindo as músicas e as histórias que quer viver, que quer sentir… se ela soubesse, se eu lhe pudesse dizer, explicar, onde ela irá, onde chegará, o que viverá. Se eu pudesse dizer-lhe que vai ser tudo tão rápido e fugaz, se eu pudesse sussurrar-lhe ao ouvido tudo o que agora sei… teria sido diferente? Teria o mau sumido? O medíocre sido ignorado e o bom repassado?
Por vezes a única coisa que parece fazer sentido é fechar os pensamentos em cofres e deitar a chave fora. Mas não desaparecem, nada na verdade desaparece, pausa-se.
E ela continua lá, bebendo tudo aquilo que deseja, tudo quanto quer ver, ser, viver. Tão doce e inocente. Se eu pudesse sentar-me ao lado dela… Vejo-a, sinto-a, vivo-a. Escorre-me por entre os dedos, todos os momentos em que não soube fazer com que fosse diferente…
Corro pelo labirinto dos pedaços perdidos por entre as folhas de papel, o pó que não esconde o que foi escrito, dito, feito. Como uma traça atraída pela luz, tentando sempre voltar atrás, apanhar os pedaços, reconstruir os passos… uma vez e outra mais. A tentativa banal de me deixar entorpecer pelos momentos, outros momentos quando na verdade acabo sempre por voltar ao mesmo ponto.
E ela continua sentada bebendo da vontade irracional de saber onde irá… se eu pudesse sussurrar-lhe ao ouvido para esperar mais um pouco… saborear mais um segundo.

Do lado de cá do espelho abraço-me em solidão e vazio sorrindo-lhe por saber que ela ainda irá dar os passos que eu já tracei…

segunda-feira, 4 de março de 2013

Meio





A árvore era verde. O baloiço era feito de papoilas. Vesti o vestido azul, porque é da cor dos sonhos. Baloicei ao ritmo dos pensamentos.  Aqueles que saltam do lado esquerdo para o direito sem que se centrem, sem que deixem que os centremos. Na verdade a culpa é nossa… não os queremos centrar, concretizar. Deixamos que saltitem de lado para lado, como crianças que não têm que pensar no que ficou para trás, no que virá. Aqueles pensamentos que não queremos ter, as lembranças que queremos apagar, as palavras que não queremos ouvir, as verdades que não queremos dizer.
[Suspiro]

Anatomia do esquecimento. Esqueço o que não quero, lembro o que não me apetece.
Esqueceste-me? Esqueces-me? Esqueci?
Balouço para trás e para a frente, ao compasso das memórias que vão dançando no movimento. Inclino-me e deixo que o corpo quase roce o chão… abranda o ritmo. De olhos fechados lembro o cheiro a laranjas, as laranjas que caiam quando baloiçava na árvore do quintal. Já não existe e a memória está tão longe… talvez à distância de 7300 dias, 175200 horas… tempo, ainda que não seja a sua real medida aquela que escolhemos dar-lhe. O relógio marca sempre o mesmo compasso, matematicamente desliza os números em sequência, 24h por dia. Assim sendo porque nos custam algumas horas a passar mais que outras?
[Suspiro]

Voa-me o tempo por entre o balouçar lento e o meu cabelo entrançado que raspa o chão.
Vejo a Alice sentada no galho e o gato que ronca ao seu lado… o tempo em que chegaram não existiu.

Alice: Meio cheio ou Meio vazio?
Eu: Não acaba por ser a mesma coisa?
Alice: Nop. Diz a teoria de que meio cheio é optimista e meio vazio o pessimista.
Eu: Não concordo.
Alice: Como não?
Eu: Pode estar meio cheio de nada e meio vazio de tudo.
Alice: Isso não faz sentido.
Eu: Nunca disse que fazia, são apenas perspectivas, como o optimismo e o pessimismo. Sempre fui mais pessimista que optimista.
Alice: Porque?
Eu: Parece-me mais real ser pessimista.
Alice: Porquê?
Eu: Dói menos esperar pouco. Porque na verdade esperas, tens uma expectativa, mas se a contorceres a ponto de fazeres com que o que esperas sejas mais seguro não te dói tanto quando não acontece.
Alice: Mas e se acontecer?
Eu: Se acontecer ficas duplamente feliz por que supera as tuas expectativas.
Alice: Já me tinha esquecido de como és depressiva.
Eu: Realista.
Alice: A realidade tem coisas boas.
Eu: Não disse o contrário, mas a realidade nunca consegue atender ao que esperas.
Alice: Talvez esperes demais.
Eu: Talvez…
Alice: Quem esperas?
Eu: Quem já chegou.
Alice: Meio cheio?
Eu: Meio suspenso nos nadas que me enchem, meio vazio nos tudos que me vão faltando.
Alice: Meio com Meio faz um cheio.
Eu: Talvez…

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Para o meu primeiro Amor!


Quando for grande quero ser como tu!
Quero dar um porto seguro a um pedaço de mim tal como fizeste. Fazer com que alguém exista e ajudá-lo a ser alguém nos pedaços do tempo que passam por nós.
Só tenho amor para te dar. És uma força, um exemplo. E eu Amo-te na forma mais pura do Amor. Amo-te tanto que consigo ser a maior chata do mundo e não largar a tua saia, literalmente! Espero um dia ser para alguém aquilo que sempre foste para mim.
O calor do colo, a sabedoria dos conselhos. Sangue, suor e lágrimas, se preciso.
Podia escrever um livro com histórias nossas, nem todas bonitas, mas nossas.
Amor que não espera nada, brota de mim em pureza e calor.
Sinto saudades tuas todos os dias, nem que seja para ouvir um ralhete.

Poderia dar-te os parabéns todos os dias, porque és minha mãe, mas porque hoje és bebé também, Parabéns Mamã.

Amo-te!

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Exoresquece


“exorcizar

v. tr.
1. Pronunciar exorcismos para expulsar demónios ou espíritos do corpo de. =ESCONJURAR
2. Bradar como quem esconjura.”



Exorcizar como quem esquece. Pestanejar, processar e esquecer tudo o que se nos apresenta.

Pequenos exorcismos.
Choro.
Gritos.
Suspiros.
Orgasmos.

Caminham connosco nem sempre, mas muitas vezes, ao mesmo ritmo.

“Life doesn’t get easier, we just get stronger”

Crescemos em exorcismos paralelos. O leite materno, a chupeta, o colo, a resposta imediata ao choro, as rodas sobresselentes.

Nem sempre é fácil seguir em frente.
Acredito que nunca é fácil crescer. Exorcizar da memória a lembrança da primeira dor, a primeira é sempre a pior, a que rasga, a que, quase sempre, deixa a maior cicatriz.

Primeiro estalo, primeira queda, primeiro medo, primeira desilusão.

Exorcizar a dor de quem deixamos para trás para poder seguir em frente. Esquecer o nó que se cria no peito.
Exorcizar a memória de quando deixámos que retirassem as rodinhas que suportavam o pneu traseiro da bicicleta. Porque queríamos uma maior… Ou apenas porque faz parte do processo de crescer. Evoluir. Caminhar em frente, não retroceder.
Exorcizar quem desaparece do nosso dia a dia. As memórias que nos ficaram delas. Exorcizar para esquecer, exorcizarmos do corpo um pouco da dor de saber que não há corpo para abraçar, voz para ouvir. Exorcizar que mesmo quando o corpo está por vezes o resto já partiu. Exorcizar que erros são cometidos ao longo do caminho.

Exorcizar não será necessariamente esquecer, mas alivia a tensão do corpo, treme a alma e fá-la entender que tem que se reajustar, encontrar o seu espaço, o seu ritmo, mais uma vez.

Não. Exorcizar não é esquecer. É seguir em frente, tremer, chorar, e guardar o que ficou para continuar.

Não, a vida não fica mais fácil, mas a verdade é que nos tornamos bastante mais fortes no caminho.

Imagem de Dança Contemporânea retirada do Google.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Agro Dolce





Ela dançou, na ponta dos pés, no meio do campo de milho. Não havia o medo, não havia  a tristeza a dúvida. Só ela, e os pés que se esgueiravam pelo meio das folhas.

O amor agri-doce.
A doçura de acordar de manhã, e olhar quem se ama dormir. Sem voz, sem gesto, apenas a doçura do sentimento espalhada em nós, por nós. Atada àquele que baptizaram de coração. Aquele que impõe e nos faz sorrir em delícia sincera.
O agri dos momentos azedos, das eventuais lágrimas salgadas que se passeiam pelo rosto e se espalham como chuva que cai no chão.

Amor doce não existe por si só. Inexequível. Quem ama discute para crescer, porque ama, porque sente. Não há amor de mel, apenas mel com limão. E quando o limão se espalha com o seu travo azedo pela nossa boca, quando o sentimos na nossa pele e inundar os nossos olhos de tudo o que há de menos bom… o mel abraça-nos em espessura e doçura.
Foi assim que cresci. Agri doce. Capa azeda, recheio doce. Com tudo o de mau que me deram e que me deu um recheio mais quente, mais encorpado. Real.
Chocolate com pimenta. O açúcar que se derrete na boca e a pimenta que estala na língua.
Quando era pequena ela dançava, sozinha, escondida. Não pensava, apenas dançava. Ouvia e sugava sem partilhar o que dela brotava, tudo o que dela emanava. Com uma capa recheada de sorrisos, aninhada em normalidades banais ela sabia que a verdade estava naqueles momentos em que fugia de tudo, todos, e se escondia no campo de milho e se deitava emoldurada por todo aquele verde. Contava pássaros, borboletas, animais em nuvens. Cantava sem que ninguém ouvisse. Era feliz e inteira no espaço destes nadas que a faziam feliz. E dançava, quando ninguém a via, quando ela era o seu único centro e nada estava dependente do que ela fazia.
Hoje sei que tenho mais de doce, embora o azedo exista. Ainda danço descalça pelo chão quando estou sozinha em casa. Mas hoje sei que partilho o que sou, quem sou, em agri doce. E não há nada melhor que um abraço que seca lágrimas e um peito que apaga mágoas.

Não é tudo, mas é amor.

Sugestão Musical: http://www.youtube.com/watch?v=ssdgFoHLwnk

Imagem retirada do Google

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Inverno



O frio embrulha-se na pele. Como se esta não fosse suficiente. Como se não fosse uma proteção. Como se esta não existisse. Infiltra-se como se chegasse aos ossos. Eriça. Excita. Como o eterno lugar comum, o gelo que queima.
Escolho um casaco de lã, embrulho-me como se fosse para a rua. A rua que fica do lado de lá da janela.
Olho, o fim de tarde que se desenha no horizonte. O mar. O vento.
Inverno
Estação.
Passado.
Músicas antigas, bandas sonoras de filmes que são também o passar de histórias minhas, comuns.
Os sorrisos serenos de quem vê de longe. Quem recua no tempo. Sente o que já passou, como se estivesse ao meu lado. Vivo. Do lado de dentro do vidro.
A cada letra uma imagem que se desenha do lado de dentro do peito, por baixo da pele, no negro da íris. Abraça-me em forma de gelo, gelo que aquece no peito. Abraço-a de volta. Dançamos lentamente ao compasso da letra…
I’m fine baby, how are you? Lugares comuns, banalidades…
Não são apenas dias, são anos presos nas pontas dos cabelos que ainda não foram cortados…
Lembro. Lembro a voz da minha avó misturada com o cheiro do pão no forno de lenha. A voz que dava resposta aos meus queixumes em idades de porquês. “As histórias têm o tempo de um fio de cabelo. A raiz vai crescendo, acompanhando, vivendo, vais cortando pequenas pontas. E com elas vão as memórias que ficam para trás. O cabelo demora a crescer, mas quando cortares essa última raiz que o tempo empurrou… a memória vai… e será quase como se não tivesse acontecido”
Sempre tive aversão a cortes de cabelo. Sempre achei que me cortam demais. Sempre fiquei presa no passado. Nas memórias. Nas raízes que demoram a cair, talvez tenha que cortar o cabelo mais vezes.
Suspiros silenciosos que se prendem num pequeno pestanejar.
A música pára, a dança também. Abraço o frio que me gelou os dedos e a ponta do nariz.
Serenidade. Aquece os lábios, desenha sorrisos.
Não preciso cortar a raiz… há sempre um cabelo que cai, todos os dias.

Imagem de Klimt

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Memória



Ás vezes o papel só serve para fazer desenhos. Desenhos e não palavras, palavras em desenhos. Um blah blah blah de imagens soltas, dispersas e (aparentemente) sem sentido.

Ainda dou pestanejares ao esquecimento. Ainda tenho slides de fotografias nos meus olhos. Ainda me lembro de frases soltas, gestos sem sentido, cheiros que me realçam a memória.


A manhã que se desprende em abraços de preguiça ou aqueles dias que acabam sem querermos que outros comecem.


Ainda lembro o vestido das borboletas que sujei dançando na lama, ainda me lembro quando dançámos sobre a relva ensopada, sem que as cronologias sejam respeitadas. Ainda me lembro dos rodopios, dos sorrisos, lembras?


Ainda me lembro do que escrevi a primeira vez que te vi, a primeira vez que te toquei, a primeira vez que te beijei...


Ainda me lembro da janela do quarto, o meu quarto, das árvores do cinzento, ainda me lembro do cheiro pesado a cigarros nas paredes, nas folhas amarelas dos meus livros amontoados, os meus livros...


Ainda me lembro do quanto sorri e do quanto chorei naquele quarto, entre essas paredes, cheias de postais e borboletas, tudo emoldurado pela janela.


Lembro-me de quem fui, de quem me afastei, de quem me criei, de quem me esqueci, lembro todas, sou todas. Fui todas.


O horizonte acinzenta-se na sua infinitude. Uma criança brinca com o triciclo novo. Outra criança de roupas rasgadas brinca com o seu triciclo sem rodas. Outros jogam cartas, outros vendem cajú, outros olham e outros nada...


Outros fazem um ckeck-in, outros fazem um check-out. Outros nascem, outros morrem.


Tudo acontece e se sucede. Como eu. Como nós. Como todos.


Deixar-me ir na estranheza de lembrar. Lembrar e saber. Lembrar e duvidar. Lembrar e querer. Lembrar e melhorar. Lembrar e seguir. Lembrar e matar.


Como um caminho que se percorre de olhos vedados, a rendas.
A minha avó e as suas agulhas, a minha avó e o seu crochet, a minha avó e as suas histórias de terror, a minha avó e o seu forno de lenha, a minha avó e os seus gritos.


Memórias, desenhos, palavras, tinta dispersa em papel, como na memória.


Doença, alegria, carência.


Vozes que escolho como companhia. Sorrisos que escolho como companhia. Chás que escolho como companhia. Coisas, sempre coisas. As coisas que importam ou coisas sem importância.


O silêncio em todo o lado menos dentro de mim. A saudade dobrada nas pestanas que se tocam. Eu e tu. Eu tu e a caneta. Eu, tu, a caneta e a tinta. Juntos em vazios que se desprendem como fogo de artifício nos olhos, nos lábios, nos dedos.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Saco de Morangos

Ela passou com um saco cheio de morangos.

Da cadeira que escolhi vi a porta de madeira com grades vermelhas… vermelho que contrasta com o amarelo das paredes. Eram duas as janelas abertas. De uma espreitei os cotovelos de um personagem que existe apenas no fumo que expele dos lábios gastos, de outra vejo uma senhora, já de uma certa idade (não que a expressão queira dizer algo, ou seja apropriada, dizer que alguém é de uma certa idade não lhe dá um carimbo etário preciso, uma certa idade poderiam ser 15 anos, embora aí não lhe chamasse senhora, poderia ter 30, ou 40 mas a verdade é que quando atribuímos a alguém o carimbo de “uma certa idade” as quantidades são sempre elevadas, digamos que nunca abaixo dos 70), põe no seu cabelo branco uma flor verde. A sua imagem remete-me para uma outra senhora que vi uma tarde em que caminhei pelo parque Eduardo VII. Lembro-me que estávamos no fim do Inverno, num daqueles dias que antecedem a chegada da Primavera mas que têm já sabor a Primavera. Caminhei, com ela, ela que é a amiga de sempre, a que vê quando ninguém sequer suspeita, a que ouve quando eu não digo, as árvores deixavam passar os raios de sol por entre os ramos e entre silêncios, monólogos, passadas lentas. Caminhámos lado a lado, ou uma um pouco mais à frente que a outra, quando demos por nós estávamos perto daquele parque a que chamam Amália. Sentámo-nos, pedimos algo que não me lembro o que foi, e observámos algumas pessoas, como sempre. Acto involuntário. Foi aí que a vi. Sei porque o escrevi.

Ela tinha um casaco vermelho.

Ela tinha um casaco vermelho velho mas que não é velho, é vintage. Acompanhou-o do seu cabelo, meio ruivo meio amarelo, atabalhoadamente apanhado numa banana presa por um gancho amarelo e vermelho, como o cabelo. Escolheu uns brincos pérola e redesenhou sobre as rugas um risco preto que realça os seus olhos azuis que parecem verdes, vivos ainda. Dou-lhe setenta anos, não deve estar muito longe disso, o seu rosto não mentirá muito sobre a sua idade, mas os seus olhos, o seu olhar é o de alguém que tem dentro de si o fervor de uma vida ainda, uma vida que ainda arde em tons de azul e verde. Da bolsa cor de caramelo puxa um pacote de cigarros, tira um e coloca-lhe na ponta do filtro algo que sei o que é mas que não sei o nome correcto, como as mulheres usavam nos anos 20. Não sei o seu nome mas qualquer nome que não seja místico não será o seu com toda a certeza.

Foi assim que terminou o texto. Esqueci-o por entre as pequenas folhas de um pequeno caderno que naquele tempo sempre apanhava boleia na minha mala. Mas lembro-me da imagem dela, muitas vezes. Pela força, pelo mistério, pelo carimbo que me deixou naquele dia. Não a imagino avó de alguém, para mim uma avó veste aventais ou batas de padrões floridos e demasiado garridos, usa botas de borracha ou umas pantufas de rede, tem os cabelos curtos porque assim dá menos trabalho e todo ele é cinzento. Essas são as minhas avós, as avós que o meu imaginário reproduz quando busco a imagem que associo a essa palavra. Ela não era assim. Ela parece a minha tia-avó, irmã da minha avó paterna, aquela que usava saltos altos e unhas vermelhas, se maquiava, e tinha todos aqueles vestidos e sapatos fantásticos dos anos setenta. Essa minha tia não tinha netos, era tia e não avó e não a consigo imaginar como avó. Mas o carimbo que ela, com o casaco vermelho, me deixou foi diferente, quis ser como ela e ser avó, deslumbrar os meus netos e deixá-los vir ter comigo pedindo histórias, hei-de gastá-las todas e eles hão-de pedi-las de novo, apenas porque gostam de mim.

Ela passou pela rua com um saco cheio de morangos vermelhos.

Pergunto-me se se conhecem… as duas janelas, aquelas em que pousavam o senhor do fumo e a senhora da flor verde, talvez não se conheçam já que que sobrepostas nunca se encontram. Na praça passam personagens que me despertam por entre tantos outros que se misturam sem sobressair. Nem sempre o que sobressai é positivo, mas a verdade é que, cada um pela sua razão, não são iguais. Guardo-os um pouco enquanto percebo que a Primavera, este ano, não trouxe andorinhas. Não vejo os ninhos, não as vejo nem ouço. Talvez tenham migrado para o Verão.

E tinha um saco cheio de morangos.

Irritam-me os putos e os skates, não por serem putos ou por terem skates mas por conjugarem ambos com a triste atitude de que tudo é deles. Hoje não me apetece ouvir o baque da madeira contra o chão. Também me irritam os pombos que correm pelas migalhas que se espalham com o vento pela calçada. Há passos, caminhos, ritmos. Sobem escadas, descem escadas, riem, correm, mais coradas, mais pálidas, mais calmas, mais agitadas, mais atentas, mais alheias. Pessoas que passam aqui. Será que alguma me viu? Algumas pessoas sentam-se e pedem copos, ele sentou-se e pediu uma garrafa, vinho branco. Durante algum tempo pensei que esperasse alguém mas a garrafa ficou vazia e as cadeiras que estavam ao seu lado também. Perguntei-me durante algum tempo se a pequena tristeza na sua íris seria por alguém não ter chegado ou porque simplesmente ninguém se sentou.

Sentei-me sozinha na esplanada porque decidi ir a pé para casa. Desci a avenida e apeteceu-me parar na praça e pedir uma cerveja, que nem sou grande apreciadora, mas apeteceu-me e por vezes há que dar ouvido às vontades. Sentei-me sozinha no meio da praça, com o sol a queimar-me os ombros e um sorriso a rasgar-me os lábios e foi aí que ela passou pela rua. O vestido era preto, o cabelo era preto, os olhos estavam pintados de preto, as botas eram pretas, as pulseiras e os fios eram aparentemente pesados e pretos, apenas os lábios eram vermelhos e esse vermelho brincava com o saco, cheio de morangos vermelhos, que ela trazia preso na palma da mão esquerda.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

sonsondergang


"...matar saudades de ti. Ou matar-te, como fazem as crianças, para recomeçar uma outra história, no balouço quotidiano do teu sorriso."

Conhecem o sentimento?

Uma ideia aninhada em forma de embrião no cérebro? Como uma música que ouvimos algures, não sabemos de quem é, não sabemos a letra mas que insiste em martelar na nossa cabeça em forma de pequenos acordes isolados que se repetem? As palavras são iguais. Surgem, encontram amigas pelo caminho, unem-se e quando crescem para pequenas frases/ideias dispersam-se pelo cérebro em pequenos martelos... deliciosos, irritantes, tristes, vivos ou qualquer outro adjectivo que acrescentem a si mesmas.

Estou em casa. Da cadeira que se arruma atrás da secretária vejo a janela da sala... e ela veio enquanto olhava o sol, tão simples quanto isto;

"Entre pestanejares o sol morria de raios presos nas folhas que dançavam ao sabor do vento."

Apenas uma frase que martelou e martelou até se aninhar atrás da orelha e eu já não conseguir olhar para o computador, para a televisão ou mesmo para a janela. Uma inquietude que se instala na alma, ou na nuca... nunca sei muito bem.

Pego no caderno de sempre e é isto que tenho que escrever: "Entre pestanejares o sol morria de raios presos nas folhas que dançavam ao sabor do vento."

Entendem o sentimento?
Embrulha-me o estômago, não é enjoo, não é fome, é esta ideia, maior que o resto no momento, esta ideia que nasce e não espera por nada nem ninguém... como um pequeno animal que nasce e começa logo a andar, não precisa mais que nascer para andar. As ideias andam dentro de nós e explodem de várias formas, num olhar doce que damos a alguém, numa frase que dizemos a alguém, no simples tocar alguém... ou então... Ou então morrem no papel, no papel por onde rolamos a tinta que os nossos dedos comandam. E aí... já não são minhas, já não são apenas minhas, são um novo universo que assim que nasceu começou a andar sozinho...

Conseguem entender?

"Entre pestanejares o sol morria de raios presos nas folhas que dançavam ao sabor do vento."

E depois disto já não tem lógica, são sentimentos, memórias que se repetem porque se colam umas às outras, dão as mãos e dançam na minha mente. Eu, de costas para a sala, olhos fechados, saboreio o por do sol e o silêncio, o silêncio de onde se desembrulham passos, passos que ele percorre na minha direcção, as mãos que em silêncio se trancam em torno do meu ventre, o calor dos lábios na minha orelha e o coração que bate freneticamente nas minhas costas e me apaga todo e qualquer pensamento... paz. É a água que se espuma aos meus pés em sinfonia que apazigua, enquanto o sol desce beijando o mar e os miúdos correm pela areia desenhando pegadas alheias. É o quintal da minha casa, minha outra casa, onde em tardes de Verão o sol se espreguiça por entre as laranjeiras acompanhando o compasso preguiçoso de um cigarro. É a minha avó que me ensina a desenhar flores enquanto em troca pede que eu a ensine a escrever o seu nome. É o meu irmão, ainda bebé, a acordar da sesta com o sorriso mais doce e inocente, e o cheiro a bebé. São as suas mãos pequeninas e gordas que se abrem para mim e pedem colo enquanto o sol desce pela janela... Sou eu, com elas, a saltar à corda em lengalengas que tentavam acompanhar o compasso dos saltos, antes que o sol se fosse, antes que tivéssemos que voltar a casa. Sou eu, agora, deste quarto andar vendo tudo isso em flash solarengo.

Entendem?

"Entre pestanejares o sol morria de raios presos nas folhas que dançavam ao sabor do vento."

É preciso matar para seguir. Matar em papel estas ideias, estas histórias, fazer estes exorcismos. Matar para seguir.

Diz alguém que a primeira parte para qualquer cura é aceitar-se que se está doente. Memórias, palavras, ideias, são uma espécie de doença... é que... entre pestanejares o sol morria de raios presos nas folhas que dançavam ao sabor do vento.

Citação retirada do livro Fazes-me Falta, Inês Pedrosa
Imagem retirada do Google

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Carpe Omnium



Nada está igual mas nem tudo mudou.

As ruas mantêm-se com a sua terra vermelha, barrenta. As
vozes que não entendo, ou entendo pouco, as cores nas roupas, nas pessoas…

Nada está igual mas nem tudo mudou.

Para cada acção há uma reacção.

Eu mudei nas roupas que escolho, quase todas, nos sapatos
que uso, alguns, nos adereços que escolho, quase nada, na maneira como olho as
coisas, tudo!

Há uma certa beleza idiossincrática que me escapou antes,
uma beleza simplista que se resume em pequenas coisas, tão pequenas quanto o
facto de caminhar (quase) no centro da cidade e ouvir pássaros como se
estivesse no campo. Não no campo, como se estivesse na minha aldeia, a minha pequena
aldeia atrás do sol, com tantos que amo. A verdadeira beleza é simplista, tão
simples quanto o acto de escrever estas palavras num caderno de folhas já
amarelas forradas a capa de capulana, numa esplanada (quase) no centro da
cidade, onde consigo ver os pássaros cantar alegremente e avistar o mar escuro
emoldurado pela terra castanha acompanhado por uma fatia de tarte de maracujá…

Doce e azedo. O excesso de doce azeda-me a boca, há uma
linha ténue entre o doce em falta e o doce em excesso que leva o melhor a ficar
mau. Na arte da doçaria como na vida doce em excesso azeda, como ilusões que se
nos apresentam salpicadas a açúcar e pepitas de chocolate… ilusão de muita
doçura. Mas passíveis de azedume. Na arte da doçaria como na vida… doce q.b. por
favor.

São cinco da tarde e atrevo-me a afirmar que metade das
pessoas que estão comigo nesta esplanada já terminaram o seu dia de trabalho e
aqui vieram matar um espaço de tempo que habita na sua existência. Como eu. É
uma boa forma de o fazer, não?

Nada está igual mas nem tudo mudou.

Quase todas as ruas têm o mesmo nome, a mesma direcção mas
aparentemente mais semáforos. Precisaremos de mais “luzes” que nos digam para
parar, seguir, ou avançar com cuidado? Quase todas as ruas têm o mesmo nome mas
o simples acto de encontrar chás que me agradem mantém-se difícil. Há um amor
pelo Rooibos que me parece um tanto ou quanto exacerbado… mas quem sou eu…
Suponho que faça também parte da beleza.

O caminho é o mesmo, a árvore é a mesma, a mesa que escolho
é a mesma. A casa é a mesma e praticamente tudo está como deixei, as mesmas
fotos, nas mesmas molduras, nos mesmos locais que escolhi, estampas que me
recordam pessoas especiais. Os seguranças do prédio, os mesmos, iguais nas
pequenas diferenças que se lhes
acrescentaram no espaço de um ano, mais ou menos uns gramas, mais umas rugas e
num caso muito particular uns óculos de massa pretos, vintage, Ray Ban, quando
o vi depois deste ano disse-lhe “Parece o Ray Charles”, sorriu com o mesmo
sorriso e gratidão de sempre. E contínuo sem saber o seu nome… a Júlia que
sorriu como nunca a tinha visto sorrir e que se mantém igual, este ano não
passou por ela. A mercearia da esquina, com os mesmos empregados, os mesmos
patrões mas com mais estantes. Os pavões que se passeiam pela rua continuam sem
o leque de penas mas mantêm o passo galante rua acima, como se fossem suas…
talvez sejam. O Vila Itália na
esquina, que agora se chama Ciao! Mas
que se mantêm italiano. A pequena banca da rua, com a menina que vendia a
papaia que eu gostava, fechou, ficou sem dinheiro. Agora tem outra menina mas
já não tem papaia.

Nada está igual mas nem tudo mudou.

Nesta esplanada que tantas vezes visitei e que hoje, depois
de um ano, visito de novo continuam a olhar curiosamente para esta pessoa que
escreve nas folhas amarelas de capa forrada a capulana. Alguns olhares parecem
falar, “será um diário?”, “será maluquinha?”, “será uma carta?”, “serão notas?”,
talvez não pensem nada, muitos nem me notam e essa é sempre a melhor parte.

As crianças ainda brincam com as empregadas enquanto as mães
bebem os seus chás com as suas amigas, o sol ainda me queima na pele e ainda
fico vermelho camarão antes de bronzear.

Nem tudo mudou e isso é bom.

Mas nada está igual no lado de dentro dos olhos que me acompanham.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Inanis

Um segundo.
Basta um segundo para tudo se desmoronar...

Há um tempo que se dobra e nos abstrai do relógio, como se as nossas células negassem a sua passagem.

A lareira acende-se aos meus pés em arrojados tons de vermelho, laranja e amarelo... segundos que me cortam o peito.
Algo me chama... onde, quando, quem?

Se te disser que o peito me morre em sopros de nada... que têm que ser algo caso contrário porquê soprariam? Acreditas?

Afasto-me do fogo... não consigo dormir, a cama está vazia. Não consigo ler, o meu cérebro viaja para outros espaços...
Olho o frio que se desenha do lado de lá da janela, nevoeiro... denso, nem parece dia.

Aperto o meu vazio em mim mesma, como se me abraçasse, mas não é abraço, não é nada mais que um gesto, vazio, em mim...

segundos em horas arrastadas. sem voz. nada.

Porque me bate no peito a morte do tempo, em águas calmas e silenciosas.
Porque sou desequilibrada no equilíbrio do banal... do comum, do repetido. Este compasso menor... que fica em dó sem subida de escala.

Perdi a voz no compasso de uma dança inventada.

Quando o tempo me beijava as faces e me entrançava o cabelo eu corria por campos abertos, sem pensar em depois ou amanhãs. Sempre me bastaram os desenhos que via nas nuvens, as histórias que fazia ao ver as imagens dos quadros que se penduravam em casa dos meus avós, as palavras que lia dos livros de capa grossa em casa dos meus avós, as perguntas do meu avô depois da ceia... Bastava-me um vestido com tutu e eu era já bailarina... bastavam os óculos da minha avó e eu era professora, bastavam as escovas da minha mãe e eu era cabeleireira, bastavam as canetas do meu pai e eu era empresária, bastava um conto de fadas e eu acreditava que estava num...

Um pequeno livro em branco...

Quando o tempo me beijava as faces eu sentava-me no baloiço debaixo da laranjeira e acreditava que estava a voar, eu saltava à corda e acreditava que saltava num trampolim, eu ouvia os discos de vinil e acreditava que estava num concerto, eu roubava as camisas de noite da minha tia e achava que era uma princesa...

O tempo pára de nos beijar. Acredito que só nos apercebemos disso bastante tempo depois. Em finais. Ou em epílogos. É a ordem natural de tudo.

É nestes espaços vazios que mais me recordo dos espaços que me preenchem. Que quando me olham ninguém vê...

Hoje o tempo rasgou-me o olhar. Embrulhou-me o espaço e arrefeceu-me o peito. Porque o calor não dura sempre... mas o frio também não.

Perdoem-me os sãos... o tempo pode já não me beijar as faces, eu posso já não acreditar nas coisas da mesma forma... mas a idade não mata a sonhadora que se aninha em borboleta dentro de mim... aquela que precisa de voar em dias ímpares, que precisa soprar flores em dias sim... que precisa de silêncios em contemplação, que gosta de viajar sem ter que se mexer.

Nem hoje, nem nunca.

Imagem retirada do Google

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Repetição




A noite fria distendeu-se juntamente com os lençóis até ao fundo da cama, com o sol o calor disse bom dia.
Sinto o meu suor húmido na almofada e o teu espaço frio na cama.
Sozinha. Acordei com o meu sorriso abandonado.

Não tenho voz. Embrulhou-se algures nos vincos dos lençóis...

Tenho fome de carinho. Como uma sandes de camadas. Uma de abraços, outra de beijos, outra de vozes, outra de palavras, outra de nadas. Os nadas vão sendo nas entrelinhas os que mais sabor têm.

Levanto-me, embrulho-me em qualquer coisa que encontro pelo caminho... Há quem acorde de olhos adormecidos, eu acordo com os pés adormecidos. Arrasto-os comigo pelo corredor.
Casa vazia.

Estendo o meu tronco sobre o tampo semi espelhado da mesa. Vejo a minha respiração bater na superfície e evaporar.

Vazio.

Os vazios passeiam por entre espaços preenchidos em nós.
Como?
É como ter um frasco com pedras até ao topo, olhamos e dizemos que está cheio, mas se lhe deitarmos areia ainda há espaços por onde deslizar e se olharmos diremos que está cheio, mas podemos sempre verter água.... e ela irá deslizar por entre as pedras e ensopar a areia. Há sempre um espaço vazio, mesmo quando tudo nos parece cheio...

Não sei onde começo e acabo, sou quase como o lençol que se embrulha durante a noite. Embrulho-me pelo caminho, nos meus pensamentos, no que vejo, no que sinto... e no todo que se preenche permanece este vazio, miúdo dia sim agudo dia não.

Vou até à casa de banho, molho o rosto, como que na esperança de que o toque da água fresca e pura na pele me limpe o que suja por dentro. Os medos, as dúvidas, as desilusões, as reticências que vão ficando no longo livro que escrevemos. Não rasgaria, ou tão pouco omitiria folhas escritas até agora, mas algumas delas foram escritas a sangue... e mesmo quando já muitas páginas se lhes sobrepuseram, por vezes, esse sangue pinga ou borra, não desaparece, e nem mesmo essas apagaria.

Não esqueço o bom ou mau, mas confesso que lembro sempre o mau com mais força, o vermelho é mais vivo, salta das gavetas.

esqueço tudo o que não estimulam em mim. Seja em dor ou amor.
A falta de estímulo esvazia em mim a água que no frasco ensopa a areia.

Sou demasiado poética nas histórias que desenho sobre a minha cabeça, demasiado vaga nos saberes que escorregam dos meus lábios, demasiado severa no julgamento que lanço com o meu olhar, demasiado viva no corpo que entrego entre os lençóis.
Caberia num átomo, mas não me chega o mar.

Mas nada é repetido... ou igual... há sempre uma pequena diferença no acto de repetição. Ninguém percorre o mesmo caminho, ainda que o faça lado a lado.

"O tempo humano não anda em círculos, mas avança em linha recta. Por isso o homem não pode ser feliz: a felicidade é desejo de repetição."


Tenho saudades de acordar e ter já os teus olhos pousados em mim, dos corpos colados, dos lábios mordidos, das mãos entrelaçadas. Mas mais que saudades tenho sempre saudades de saber que ela existe do lado de lá do espelho. Uso-a como uma flor viva em cor e cheiro que se colhe para enfeitar o cabelo.

Acendo um cigarro. Mais um.
Companhia de tantas horas em vazio. Vazio em repleto. Esvai-se. Fumar é quase como escrever, uma onda de fumo que engolimos e nos percorre o corpo saindo porque temos que respirar... Porque estamos vivos e para estar vivos precisamos respirar. É como o último travo que antecipa um fim insatisfatório. Apetece-me sempre outro cigarro imediatamente após o acto de raspar a cinza no fundo do cinzeiro, mas como em tudo na vida às vezes cansa a insatisfação e a repetição nem sempre traz consigo a perfeição. Nada se repete em igualdade, são apenas reticências de corpo diferente. desigual. vazio...


Imagem retirada do Google
Excerto do livro Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Citação



“Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu.”


Silêncio com cheiro a vermelho.
Respiro para dentro em sinfonias de perdição.
Embrulhas-me no teu peito em suspiros de quase morte...

Sinto a tua respiração escorrer-me pelo ombro, pescoço, pequenas explosões de um desejo maior...
Ofereço-te o meu corpo para que sintas a minha alma. Sorvo-te em línguas que tocam os lábios quentes...
Quase morte em tangentes de sabores partilhados.

Gosto que me arrombes os sentidos, que me esmiúces e me prendas em cordas soltas. Sinto-te na nuca em pequenos toques que se dobram no ventre.
Gravo o teu cheiro no peito para que me arrepie a mente

Pergunto-me, a que te sabe a minha pele?
A tua? Colapsos corporais em estremeceres intermitentes... é esse o teu sabor.

Vibra-me o corpo em reminiscências. Se fechar os olhos consigo sentir-te, ainda, dentro de mim.

Sinto, sei, que passaria um dia inteiro em quase mortes arrastadas até à exaustão.
[Chegaríamos lá?]

“Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar.”

[Pensar]

Penso no sabor que deixas em mim

[Calmantes]

Acalma-me o calor do teu corpo na minha face e a tua presença em mim...

[Simplificar]

O amor não simplifica... adensa-se e rasga-se em tudo o que de oferta absorves de mim, assim...

Imagem de Pollock


[Todas as citações neste texto são da autoria de Inês Pedrosa na sua obra Fazes-me Falta]