quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Saco de Morangos

Ela passou com um saco cheio de morangos.

Da cadeira que escolhi vi a porta de madeira com grades vermelhas… vermelho que contrasta com o amarelo das paredes. Eram duas as janelas abertas. De uma espreitei os cotovelos de um personagem que existe apenas no fumo que expele dos lábios gastos, de outra vejo uma senhora, já de uma certa idade (não que a expressão queira dizer algo, ou seja apropriada, dizer que alguém é de uma certa idade não lhe dá um carimbo etário preciso, uma certa idade poderiam ser 15 anos, embora aí não lhe chamasse senhora, poderia ter 30, ou 40 mas a verdade é que quando atribuímos a alguém o carimbo de “uma certa idade” as quantidades são sempre elevadas, digamos que nunca abaixo dos 70), põe no seu cabelo branco uma flor verde. A sua imagem remete-me para uma outra senhora que vi uma tarde em que caminhei pelo parque Eduardo VII. Lembro-me que estávamos no fim do Inverno, num daqueles dias que antecedem a chegada da Primavera mas que têm já sabor a Primavera. Caminhei, com ela, ela que é a amiga de sempre, a que vê quando ninguém sequer suspeita, a que ouve quando eu não digo, as árvores deixavam passar os raios de sol por entre os ramos e entre silêncios, monólogos, passadas lentas. Caminhámos lado a lado, ou uma um pouco mais à frente que a outra, quando demos por nós estávamos perto daquele parque a que chamam Amália. Sentámo-nos, pedimos algo que não me lembro o que foi, e observámos algumas pessoas, como sempre. Acto involuntário. Foi aí que a vi. Sei porque o escrevi.

Ela tinha um casaco vermelho.

Ela tinha um casaco vermelho velho mas que não é velho, é vintage. Acompanhou-o do seu cabelo, meio ruivo meio amarelo, atabalhoadamente apanhado numa banana presa por um gancho amarelo e vermelho, como o cabelo. Escolheu uns brincos pérola e redesenhou sobre as rugas um risco preto que realça os seus olhos azuis que parecem verdes, vivos ainda. Dou-lhe setenta anos, não deve estar muito longe disso, o seu rosto não mentirá muito sobre a sua idade, mas os seus olhos, o seu olhar é o de alguém que tem dentro de si o fervor de uma vida ainda, uma vida que ainda arde em tons de azul e verde. Da bolsa cor de caramelo puxa um pacote de cigarros, tira um e coloca-lhe na ponta do filtro algo que sei o que é mas que não sei o nome correcto, como as mulheres usavam nos anos 20. Não sei o seu nome mas qualquer nome que não seja místico não será o seu com toda a certeza.

Foi assim que terminou o texto. Esqueci-o por entre as pequenas folhas de um pequeno caderno que naquele tempo sempre apanhava boleia na minha mala. Mas lembro-me da imagem dela, muitas vezes. Pela força, pelo mistério, pelo carimbo que me deixou naquele dia. Não a imagino avó de alguém, para mim uma avó veste aventais ou batas de padrões floridos e demasiado garridos, usa botas de borracha ou umas pantufas de rede, tem os cabelos curtos porque assim dá menos trabalho e todo ele é cinzento. Essas são as minhas avós, as avós que o meu imaginário reproduz quando busco a imagem que associo a essa palavra. Ela não era assim. Ela parece a minha tia-avó, irmã da minha avó paterna, aquela que usava saltos altos e unhas vermelhas, se maquiava, e tinha todos aqueles vestidos e sapatos fantásticos dos anos setenta. Essa minha tia não tinha netos, era tia e não avó e não a consigo imaginar como avó. Mas o carimbo que ela, com o casaco vermelho, me deixou foi diferente, quis ser como ela e ser avó, deslumbrar os meus netos e deixá-los vir ter comigo pedindo histórias, hei-de gastá-las todas e eles hão-de pedi-las de novo, apenas porque gostam de mim.

Ela passou pela rua com um saco cheio de morangos vermelhos.

Pergunto-me se se conhecem… as duas janelas, aquelas em que pousavam o senhor do fumo e a senhora da flor verde, talvez não se conheçam já que que sobrepostas nunca se encontram. Na praça passam personagens que me despertam por entre tantos outros que se misturam sem sobressair. Nem sempre o que sobressai é positivo, mas a verdade é que, cada um pela sua razão, não são iguais. Guardo-os um pouco enquanto percebo que a Primavera, este ano, não trouxe andorinhas. Não vejo os ninhos, não as vejo nem ouço. Talvez tenham migrado para o Verão.

E tinha um saco cheio de morangos.

Irritam-me os putos e os skates, não por serem putos ou por terem skates mas por conjugarem ambos com a triste atitude de que tudo é deles. Hoje não me apetece ouvir o baque da madeira contra o chão. Também me irritam os pombos que correm pelas migalhas que se espalham com o vento pela calçada. Há passos, caminhos, ritmos. Sobem escadas, descem escadas, riem, correm, mais coradas, mais pálidas, mais calmas, mais agitadas, mais atentas, mais alheias. Pessoas que passam aqui. Será que alguma me viu? Algumas pessoas sentam-se e pedem copos, ele sentou-se e pediu uma garrafa, vinho branco. Durante algum tempo pensei que esperasse alguém mas a garrafa ficou vazia e as cadeiras que estavam ao seu lado também. Perguntei-me durante algum tempo se a pequena tristeza na sua íris seria por alguém não ter chegado ou porque simplesmente ninguém se sentou.

Sentei-me sozinha na esplanada porque decidi ir a pé para casa. Desci a avenida e apeteceu-me parar na praça e pedir uma cerveja, que nem sou grande apreciadora, mas apeteceu-me e por vezes há que dar ouvido às vontades. Sentei-me sozinha no meio da praça, com o sol a queimar-me os ombros e um sorriso a rasgar-me os lábios e foi aí que ela passou pela rua. O vestido era preto, o cabelo era preto, os olhos estavam pintados de preto, as botas eram pretas, as pulseiras e os fios eram aparentemente pesados e pretos, apenas os lábios eram vermelhos e esse vermelho brincava com o saco, cheio de morangos vermelhos, que ela trazia preso na palma da mão esquerda.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

sonsondergang


"...matar saudades de ti. Ou matar-te, como fazem as crianças, para recomeçar uma outra história, no balouço quotidiano do teu sorriso."

Conhecem o sentimento?

Uma ideia aninhada em forma de embrião no cérebro? Como uma música que ouvimos algures, não sabemos de quem é, não sabemos a letra mas que insiste em martelar na nossa cabeça em forma de pequenos acordes isolados que se repetem? As palavras são iguais. Surgem, encontram amigas pelo caminho, unem-se e quando crescem para pequenas frases/ideias dispersam-se pelo cérebro em pequenos martelos... deliciosos, irritantes, tristes, vivos ou qualquer outro adjectivo que acrescentem a si mesmas.

Estou em casa. Da cadeira que se arruma atrás da secretária vejo a janela da sala... e ela veio enquanto olhava o sol, tão simples quanto isto;

"Entre pestanejares o sol morria de raios presos nas folhas que dançavam ao sabor do vento."

Apenas uma frase que martelou e martelou até se aninhar atrás da orelha e eu já não conseguir olhar para o computador, para a televisão ou mesmo para a janela. Uma inquietude que se instala na alma, ou na nuca... nunca sei muito bem.

Pego no caderno de sempre e é isto que tenho que escrever: "Entre pestanejares o sol morria de raios presos nas folhas que dançavam ao sabor do vento."

Entendem o sentimento?
Embrulha-me o estômago, não é enjoo, não é fome, é esta ideia, maior que o resto no momento, esta ideia que nasce e não espera por nada nem ninguém... como um pequeno animal que nasce e começa logo a andar, não precisa mais que nascer para andar. As ideias andam dentro de nós e explodem de várias formas, num olhar doce que damos a alguém, numa frase que dizemos a alguém, no simples tocar alguém... ou então... Ou então morrem no papel, no papel por onde rolamos a tinta que os nossos dedos comandam. E aí... já não são minhas, já não são apenas minhas, são um novo universo que assim que nasceu começou a andar sozinho...

Conseguem entender?

"Entre pestanejares o sol morria de raios presos nas folhas que dançavam ao sabor do vento."

E depois disto já não tem lógica, são sentimentos, memórias que se repetem porque se colam umas às outras, dão as mãos e dançam na minha mente. Eu, de costas para a sala, olhos fechados, saboreio o por do sol e o silêncio, o silêncio de onde se desembrulham passos, passos que ele percorre na minha direcção, as mãos que em silêncio se trancam em torno do meu ventre, o calor dos lábios na minha orelha e o coração que bate freneticamente nas minhas costas e me apaga todo e qualquer pensamento... paz. É a água que se espuma aos meus pés em sinfonia que apazigua, enquanto o sol desce beijando o mar e os miúdos correm pela areia desenhando pegadas alheias. É o quintal da minha casa, minha outra casa, onde em tardes de Verão o sol se espreguiça por entre as laranjeiras acompanhando o compasso preguiçoso de um cigarro. É a minha avó que me ensina a desenhar flores enquanto em troca pede que eu a ensine a escrever o seu nome. É o meu irmão, ainda bebé, a acordar da sesta com o sorriso mais doce e inocente, e o cheiro a bebé. São as suas mãos pequeninas e gordas que se abrem para mim e pedem colo enquanto o sol desce pela janela... Sou eu, com elas, a saltar à corda em lengalengas que tentavam acompanhar o compasso dos saltos, antes que o sol se fosse, antes que tivéssemos que voltar a casa. Sou eu, agora, deste quarto andar vendo tudo isso em flash solarengo.

Entendem?

"Entre pestanejares o sol morria de raios presos nas folhas que dançavam ao sabor do vento."

É preciso matar para seguir. Matar em papel estas ideias, estas histórias, fazer estes exorcismos. Matar para seguir.

Diz alguém que a primeira parte para qualquer cura é aceitar-se que se está doente. Memórias, palavras, ideias, são uma espécie de doença... é que... entre pestanejares o sol morria de raios presos nas folhas que dançavam ao sabor do vento.

Citação retirada do livro Fazes-me Falta, Inês Pedrosa
Imagem retirada do Google

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Carpe Omnium



Nada está igual mas nem tudo mudou.

As ruas mantêm-se com a sua terra vermelha, barrenta. As
vozes que não entendo, ou entendo pouco, as cores nas roupas, nas pessoas…

Nada está igual mas nem tudo mudou.

Para cada acção há uma reacção.

Eu mudei nas roupas que escolho, quase todas, nos sapatos
que uso, alguns, nos adereços que escolho, quase nada, na maneira como olho as
coisas, tudo!

Há uma certa beleza idiossincrática que me escapou antes,
uma beleza simplista que se resume em pequenas coisas, tão pequenas quanto o
facto de caminhar (quase) no centro da cidade e ouvir pássaros como se
estivesse no campo. Não no campo, como se estivesse na minha aldeia, a minha pequena
aldeia atrás do sol, com tantos que amo. A verdadeira beleza é simplista, tão
simples quanto o acto de escrever estas palavras num caderno de folhas já
amarelas forradas a capa de capulana, numa esplanada (quase) no centro da
cidade, onde consigo ver os pássaros cantar alegremente e avistar o mar escuro
emoldurado pela terra castanha acompanhado por uma fatia de tarte de maracujá…

Doce e azedo. O excesso de doce azeda-me a boca, há uma
linha ténue entre o doce em falta e o doce em excesso que leva o melhor a ficar
mau. Na arte da doçaria como na vida doce em excesso azeda, como ilusões que se
nos apresentam salpicadas a açúcar e pepitas de chocolate… ilusão de muita
doçura. Mas passíveis de azedume. Na arte da doçaria como na vida… doce q.b. por
favor.

São cinco da tarde e atrevo-me a afirmar que metade das
pessoas que estão comigo nesta esplanada já terminaram o seu dia de trabalho e
aqui vieram matar um espaço de tempo que habita na sua existência. Como eu. É
uma boa forma de o fazer, não?

Nada está igual mas nem tudo mudou.

Quase todas as ruas têm o mesmo nome, a mesma direcção mas
aparentemente mais semáforos. Precisaremos de mais “luzes” que nos digam para
parar, seguir, ou avançar com cuidado? Quase todas as ruas têm o mesmo nome mas
o simples acto de encontrar chás que me agradem mantém-se difícil. Há um amor
pelo Rooibos que me parece um tanto ou quanto exacerbado… mas quem sou eu…
Suponho que faça também parte da beleza.

O caminho é o mesmo, a árvore é a mesma, a mesa que escolho
é a mesma. A casa é a mesma e praticamente tudo está como deixei, as mesmas
fotos, nas mesmas molduras, nos mesmos locais que escolhi, estampas que me
recordam pessoas especiais. Os seguranças do prédio, os mesmos, iguais nas
pequenas diferenças que se lhes
acrescentaram no espaço de um ano, mais ou menos uns gramas, mais umas rugas e
num caso muito particular uns óculos de massa pretos, vintage, Ray Ban, quando
o vi depois deste ano disse-lhe “Parece o Ray Charles”, sorriu com o mesmo
sorriso e gratidão de sempre. E contínuo sem saber o seu nome… a Júlia que
sorriu como nunca a tinha visto sorrir e que se mantém igual, este ano não
passou por ela. A mercearia da esquina, com os mesmos empregados, os mesmos
patrões mas com mais estantes. Os pavões que se passeiam pela rua continuam sem
o leque de penas mas mantêm o passo galante rua acima, como se fossem suas…
talvez sejam. O Vila Itália na
esquina, que agora se chama Ciao! Mas
que se mantêm italiano. A pequena banca da rua, com a menina que vendia a
papaia que eu gostava, fechou, ficou sem dinheiro. Agora tem outra menina mas
já não tem papaia.

Nada está igual mas nem tudo mudou.

Nesta esplanada que tantas vezes visitei e que hoje, depois
de um ano, visito de novo continuam a olhar curiosamente para esta pessoa que
escreve nas folhas amarelas de capa forrada a capulana. Alguns olhares parecem
falar, “será um diário?”, “será maluquinha?”, “será uma carta?”, “serão notas?”,
talvez não pensem nada, muitos nem me notam e essa é sempre a melhor parte.

As crianças ainda brincam com as empregadas enquanto as mães
bebem os seus chás com as suas amigas, o sol ainda me queima na pele e ainda
fico vermelho camarão antes de bronzear.

Nem tudo mudou e isso é bom.

Mas nada está igual no lado de dentro dos olhos que me acompanham.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Inanis

Um segundo.
Basta um segundo para tudo se desmoronar...

Há um tempo que se dobra e nos abstrai do relógio, como se as nossas células negassem a sua passagem.

A lareira acende-se aos meus pés em arrojados tons de vermelho, laranja e amarelo... segundos que me cortam o peito.
Algo me chama... onde, quando, quem?

Se te disser que o peito me morre em sopros de nada... que têm que ser algo caso contrário porquê soprariam? Acreditas?

Afasto-me do fogo... não consigo dormir, a cama está vazia. Não consigo ler, o meu cérebro viaja para outros espaços...
Olho o frio que se desenha do lado de lá da janela, nevoeiro... denso, nem parece dia.

Aperto o meu vazio em mim mesma, como se me abraçasse, mas não é abraço, não é nada mais que um gesto, vazio, em mim...

segundos em horas arrastadas. sem voz. nada.

Porque me bate no peito a morte do tempo, em águas calmas e silenciosas.
Porque sou desequilibrada no equilíbrio do banal... do comum, do repetido. Este compasso menor... que fica em dó sem subida de escala.

Perdi a voz no compasso de uma dança inventada.

Quando o tempo me beijava as faces e me entrançava o cabelo eu corria por campos abertos, sem pensar em depois ou amanhãs. Sempre me bastaram os desenhos que via nas nuvens, as histórias que fazia ao ver as imagens dos quadros que se penduravam em casa dos meus avós, as palavras que lia dos livros de capa grossa em casa dos meus avós, as perguntas do meu avô depois da ceia... Bastava-me um vestido com tutu e eu era já bailarina... bastavam os óculos da minha avó e eu era professora, bastavam as escovas da minha mãe e eu era cabeleireira, bastavam as canetas do meu pai e eu era empresária, bastava um conto de fadas e eu acreditava que estava num...

Um pequeno livro em branco...

Quando o tempo me beijava as faces eu sentava-me no baloiço debaixo da laranjeira e acreditava que estava a voar, eu saltava à corda e acreditava que saltava num trampolim, eu ouvia os discos de vinil e acreditava que estava num concerto, eu roubava as camisas de noite da minha tia e achava que era uma princesa...

O tempo pára de nos beijar. Acredito que só nos apercebemos disso bastante tempo depois. Em finais. Ou em epílogos. É a ordem natural de tudo.

É nestes espaços vazios que mais me recordo dos espaços que me preenchem. Que quando me olham ninguém vê...

Hoje o tempo rasgou-me o olhar. Embrulhou-me o espaço e arrefeceu-me o peito. Porque o calor não dura sempre... mas o frio também não.

Perdoem-me os sãos... o tempo pode já não me beijar as faces, eu posso já não acreditar nas coisas da mesma forma... mas a idade não mata a sonhadora que se aninha em borboleta dentro de mim... aquela que precisa de voar em dias ímpares, que precisa soprar flores em dias sim... que precisa de silêncios em contemplação, que gosta de viajar sem ter que se mexer.

Nem hoje, nem nunca.

Imagem retirada do Google

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Repetição




A noite fria distendeu-se juntamente com os lençóis até ao fundo da cama, com o sol o calor disse bom dia.
Sinto o meu suor húmido na almofada e o teu espaço frio na cama.
Sozinha. Acordei com o meu sorriso abandonado.

Não tenho voz. Embrulhou-se algures nos vincos dos lençóis...

Tenho fome de carinho. Como uma sandes de camadas. Uma de abraços, outra de beijos, outra de vozes, outra de palavras, outra de nadas. Os nadas vão sendo nas entrelinhas os que mais sabor têm.

Levanto-me, embrulho-me em qualquer coisa que encontro pelo caminho... Há quem acorde de olhos adormecidos, eu acordo com os pés adormecidos. Arrasto-os comigo pelo corredor.
Casa vazia.

Estendo o meu tronco sobre o tampo semi espelhado da mesa. Vejo a minha respiração bater na superfície e evaporar.

Vazio.

Os vazios passeiam por entre espaços preenchidos em nós.
Como?
É como ter um frasco com pedras até ao topo, olhamos e dizemos que está cheio, mas se lhe deitarmos areia ainda há espaços por onde deslizar e se olharmos diremos que está cheio, mas podemos sempre verter água.... e ela irá deslizar por entre as pedras e ensopar a areia. Há sempre um espaço vazio, mesmo quando tudo nos parece cheio...

Não sei onde começo e acabo, sou quase como o lençol que se embrulha durante a noite. Embrulho-me pelo caminho, nos meus pensamentos, no que vejo, no que sinto... e no todo que se preenche permanece este vazio, miúdo dia sim agudo dia não.

Vou até à casa de banho, molho o rosto, como que na esperança de que o toque da água fresca e pura na pele me limpe o que suja por dentro. Os medos, as dúvidas, as desilusões, as reticências que vão ficando no longo livro que escrevemos. Não rasgaria, ou tão pouco omitiria folhas escritas até agora, mas algumas delas foram escritas a sangue... e mesmo quando já muitas páginas se lhes sobrepuseram, por vezes, esse sangue pinga ou borra, não desaparece, e nem mesmo essas apagaria.

Não esqueço o bom ou mau, mas confesso que lembro sempre o mau com mais força, o vermelho é mais vivo, salta das gavetas.

esqueço tudo o que não estimulam em mim. Seja em dor ou amor.
A falta de estímulo esvazia em mim a água que no frasco ensopa a areia.

Sou demasiado poética nas histórias que desenho sobre a minha cabeça, demasiado vaga nos saberes que escorregam dos meus lábios, demasiado severa no julgamento que lanço com o meu olhar, demasiado viva no corpo que entrego entre os lençóis.
Caberia num átomo, mas não me chega o mar.

Mas nada é repetido... ou igual... há sempre uma pequena diferença no acto de repetição. Ninguém percorre o mesmo caminho, ainda que o faça lado a lado.

"O tempo humano não anda em círculos, mas avança em linha recta. Por isso o homem não pode ser feliz: a felicidade é desejo de repetição."


Tenho saudades de acordar e ter já os teus olhos pousados em mim, dos corpos colados, dos lábios mordidos, das mãos entrelaçadas. Mas mais que saudades tenho sempre saudades de saber que ela existe do lado de lá do espelho. Uso-a como uma flor viva em cor e cheiro que se colhe para enfeitar o cabelo.

Acendo um cigarro. Mais um.
Companhia de tantas horas em vazio. Vazio em repleto. Esvai-se. Fumar é quase como escrever, uma onda de fumo que engolimos e nos percorre o corpo saindo porque temos que respirar... Porque estamos vivos e para estar vivos precisamos respirar. É como o último travo que antecipa um fim insatisfatório. Apetece-me sempre outro cigarro imediatamente após o acto de raspar a cinza no fundo do cinzeiro, mas como em tudo na vida às vezes cansa a insatisfação e a repetição nem sempre traz consigo a perfeição. Nada se repete em igualdade, são apenas reticências de corpo diferente. desigual. vazio...


Imagem retirada do Google
Excerto do livro Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Citação



“Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu.”


Silêncio com cheiro a vermelho.
Respiro para dentro em sinfonias de perdição.
Embrulhas-me no teu peito em suspiros de quase morte...

Sinto a tua respiração escorrer-me pelo ombro, pescoço, pequenas explosões de um desejo maior...
Ofereço-te o meu corpo para que sintas a minha alma. Sorvo-te em línguas que tocam os lábios quentes...
Quase morte em tangentes de sabores partilhados.

Gosto que me arrombes os sentidos, que me esmiúces e me prendas em cordas soltas. Sinto-te na nuca em pequenos toques que se dobram no ventre.
Gravo o teu cheiro no peito para que me arrepie a mente

Pergunto-me, a que te sabe a minha pele?
A tua? Colapsos corporais em estremeceres intermitentes... é esse o teu sabor.

Vibra-me o corpo em reminiscências. Se fechar os olhos consigo sentir-te, ainda, dentro de mim.

Sinto, sei, que passaria um dia inteiro em quase mortes arrastadas até à exaustão.
[Chegaríamos lá?]

“Chamo-lhe amor para simplificar. Há palavras assim que se dizem como calmantes. Palavras usadas em série para nos impedir de pensar.”

[Pensar]

Penso no sabor que deixas em mim

[Calmantes]

Acalma-me o calor do teu corpo na minha face e a tua presença em mim...

[Simplificar]

O amor não simplifica... adensa-se e rasga-se em tudo o que de oferta absorves de mim, assim...

Imagem de Pollock


[Todas as citações neste texto são da autoria de Inês Pedrosa na sua obra Fazes-me Falta]

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Lief vir my


Prendi-te no corpo em desejo de sentidos... o teu respirar no meu pescoço...exactamente na dobra que se estende até ao ombro. Desejo que nele te pouses...que pouses em mim todo o peso que te acompanhou nesta fase...ou a leveza se for caso disso. Sinto a força dos teus braços prendendo-me pela cintura, em carinho. Os teus olhos que se debruçam sobre mim em amor... Tenho sempre medo de pronunciar esta palavra.É mágica... com o poder de nos elevar ou enterrar... Mas sinto-a em todos os meus poros quando te olho... mesmo quando me irritas ao ponto de te odiar é o amor quem me eleva a voz. Só discuto com quem realmente amo e foram poucas as pessoas com quem discuti até hoje...

Sinto-me uma miniatura sempre que me aninho em ti... não por ser pequena ou tu grande mas porque, no teu peito, sim o teu e apenas o teu, sinto que nada me pode tocar, não há bichos papões, dragões, lobos, maldades ou medos. Apenas eu tu e o compasso do teu coração. Sei-o de cor. Faz-me falta todas as noites que encosto a face à almofada... Fazes-me falta. Falta que se sobrepõe em tijolos que formam um forte no canto esquerdo do meu peito. Pesa-me tudo o que sei. Tudo e tanto do que entendi entretanto, do que vi, do que li, do que escolhi acreditar e do que escolhi esquecer... entretanto... de entre tudo.

Desculpa se calo tanto, mas estiveste sempre comigo escondido na segunda cova do lado esquerdo do meu sorriso. Mesmo quando não me ofereces as palavras que gostaria. Mesmo quando te esqueces que sou frágil...

Ouvi algures numa música; "Home is not a house but a feeling". Digo-o agora sem dúvidas aninhadas. Tu és a minha casa, quente e viva... Na ausência fundi todas as dúvidas, descompassos e alguns medos para desenhar uma chave... Espero que não tenhas trocado a fechadura na minha ausência...Sei que fui eu quem a quis, sei que fui eu quem a escolheu... Mas eu sou assim, imperfeita. Acordo irritada, não gosto que me observem porque me deixa nervosa, e quando estou nervosa rio... não partilho os meus medos porque acho que me tornam mais fraca, idealizo tudo demasiado, apanho boleia nas nuvens que passeiam pelo céu e viajo em encontros por silêncios que não sei dividir. Gosto de massa mais que qualquer outra coisa, roo as unhas, acho que tenho os olhos muito pequenos e que visto dois números acima daquilo que gostaria, sou maioritariamente confusa, vaga, distante e deambulante. Odeio ficar de alma nua (como agora).

Sou imperfeita. Preciso escangalhar as coisas para as entender, dilacerar... mas estou perto de terminar o meu puzzle...

Há frases que ditas na tinta de outros se tornam nossas...

"quantos restos de ti fazem parte de mim" - escreveu ela.

Sou tão tua [por entre eles] quanto se pode ser de alguém, e esse é o detalhe que mais me dói.

Deixo sempre que o ar me leve, muito ar, demasiado AR, eu sei, mas eu não sou perfeita. Still... I FLY

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Res non verba


Sozinha comigo, em mim, divago entre espaços vazios que pairam entre reticências.

Cada reticência é um conjunto de pontos finais que se coadunam esperando um resto.

A banda sonora não é minha, mas ecoa sob a minha voz, canto palavras que não escrevi mas sentidos que reconheço...

Caminho por entre apetites que me habitam e me consomem em nulidades de sabor...

Encho a banheira, espuma e bolhas saltitam por entre azulejos, quero água que me queime a voz, que me ferva o peito, que me consuma a mente. Calor que me ocupe e se propague pelos espaços vazios que pairam em mim...
Trago comigo o copo com néctar a veludo, que deixo a um canto enquanto mergulho na pequena nuvem aquecida...
Ouço frases soltas por entre refrões e nos entretantos dos sorrisos mudos deixo que as pontas dos dedos sintam o toque frio das torneiras [Arrepios]

Momentos egoístas que gasto comigo em silêncio.

"Come closer, come and stay with me now, help me to reconcile, come and stay a while(...) And I will find a house, because we love till the end..."


Mostro-te restos que não vês porque escolhes não ouvi-los. Tenho pesadelos no ouvido direito e sonhos que me escorregam pela nuca. Exorcismos que se cruzam em pequenos pestanejares que se espalham pela face.

Passeio os dedos pingados pela base do copo semi cheio com pequenas marcas que escorregam pelo interior... O vinho engrossa a paixão e brinda a saudade.

Escrevo pensamentos, sentimentos, verdades e mentiras em tiras de papiro conceptual, e rasgo-as logo de seguida... amasso e desarrumo tudo para que possa depois organizá-los devidamente... Brinco com cronologias e faço analogias de sentidos. Estico a razão e encolho o coração.

Sou complexa nesta simplicidade que me conheço... Vivo dias que são anos e horas que se mirram em segundos.

Apetece-me esticar até ti, como se estivesses na ponta oposta a mim, e sussurrar-te ao ouvido as pequenas doses de mim que se enrolam na tua memória. O cheiro, o sorriso, o sabor... E perder-me no silêncio da resposta.
Sou tão pequena neste momento que caber-te-ia facilmente na palma da mão... a mesma com que me tocas, a mesma com que te tocas, a mesma onde cravei um dia sonhos e desejos... a mesma que fechaste sem deixar que algo dela escorregasse.

Ergo o copo num último travo e deixo que a última gota me escorregue pelos lábios... um brinde.

Quando esmifras tudo o que vês, és feliz com o que conheces?

Quando drenas todo o teu sangue, és feliz com o que fica?

Quando esvais todo o desejo, és feliz com o que te resta?

Quando apagas toda a indecisão, és feliz com o que escolhes?

Sou feliz no vago espaço desta reticência abandonada ao silêncio do calor que se banha de veludo entre os espaços vazios, que hoje escolhi para mim, porque sim...

imagem retirada do google

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Poesiando


Há na poesia um mar de rosas sem cheiro a rosa.

Há na poesia imagens que ninguém mais, além de nós, consegue ver…

Cantos, becos, sussurros e suspiros requebrados que se escondem dentro de nós mas que gritam por sair … por ser mais.

Partilhamos estes pequenos nadas que tanto dizem de quem somos, ou vamos sendo, a quem recebe estas palavras que brincam escorregando da mente, travados pelos lábios e turbinados na ponta dos dedos. Um poeta não se sente poeta. Talvez tenha que reformular ou apenas não afirmar, não me sinto poeta, mas sinto poesia dentro de mim. Sinto-a na forma como recebo as sensações exteriores, na forma como vejo o dia a dia dos outros que se entre cruza no meu… como o nó de uma corda, que sendo uma só é não mais que uma conjugação de milhões de outros pequenos fios. Sinto-a na imagem da criança que caminha pela terra deserta e que quando é brindada pela chuva faz do seu corpo a tela e da lama a tinta…

Se escolhesse para mim uma metáfora, agora, seria a de que mais do que sangue é tinta de poesia que me corre pelas veias… gostaria de vos poder mostrar todas as frases que se conjugam em mim num dia… que vai sendo tarde e se estende em noite. Gostava. Mas não sou poeta, sou apenas alguém que gosta de poesia, esse resto de mim que vos deixo.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Cubo Mágico...


A rua era apenas mais uma. Risca preta central emoldurada por pequenos quadrados pérola... Sigo as curvas e as contracurvas em monotonia passante.


Há uma brisa aquecida que passeia por dentro do casaco. Prendem-se os olhos ao chão enquanto a mente flutua 3 metros acima do solo. Há palavras que se desenham ouvido adentro seguindo rumo ao cérebro... divagam por entre outros restos, novos sons, novos passos, novos dias, novos sabores... Gosto[-os], e por vezes Gasto[-os] também... Vícios do eu.


Palavras de saber que sabem a decisão. Repito-as, corto-as, redesenho-as e guardo-as em caixas que pairam em forma de cubo mágico.


Conjugo-me em imagens estáticas que guardo no ficheiro da memória.


Somos tanto que não partilhamos, por não sabermos, não querermos... Sei do muito em mim que jamais saberei... o mecanismo que me faz ser quem sou ao qual não são facultadas esquinas...


Vesti a pele de outro tempo e visitei uma memória que guardo num dos quadrados amarelos. Tenho 5 anos, caem-me cachos avelã encaracolados pelos ombros, vestido branco, que na verdade não era um vestido era uma T-shirt de adulto, pés descalços. Lembro-me que a minha avó me construiu um baloiço preso na gigante laranjeira que sempre viveu no quintal, até aquela altura. Era baixo para que eu pudesse usá-lo sem grandes perigos. Se fechar os olhos consigo sentir a textura áspera da corda. Balançava-me durante horas, aparentemente de mente vazia... as aparências são perigosas e esta errada. Tenho hábitos recorrentes, com 5 anos, gostava de baloiçar e pensar em nadas, eram horas comprimidas em minutos que se arrastavam em compasso de brisa esporádica. Mas não é esta a memória em questão, porque a verdade é que aquela árvore acabou por desaparecer e com ela o meu baloiço, pelo qual tanto chorei, a verdade é que guardei comigo a corda e quando a Primavera chegou os campos abertos, que sempre me acompanharam, respiraram flores, amarelo vivo.
Roubei frutas da mesa da cozinha com chão preto e uma agulha com linha do cestinho de verga que sempre habitou no canto esquerdo da máquina de costura, em ferro pintado de branco, para sozinha ir fazer um piquenique e colares e coroas com as flores amarelas. Enfiei tudo dentro da mochila roxa que o meu tio me tinha oferecido, tinha o Bugs Bunny no recorte do bolso de fora... detalhes. Retirei da mochila um lenço branco, que a minha mão jamais suspeitou que desapareceu e pousei-o num canto sem flores debaixo da árvore que dava os limões com os quais a minha avó fazia limonada para o almoço. Ao fundo o meu avô pousou a enxada e encostou-lhe o cotovelo, reconheceu-me e acenou aproveitando a pequena pausa para limpar o fio de suor que lhe escorria debaixo da boina. Sorri e acenei. Olhando esta imagem estática agora, vejo todo o carinho com que me olhava, a princesinha reguila... que hoje infelizmente já nem reconhece. Infortúnios. Em cima do lenço despejei o conteúdo da mochila e dobrada por entre a fruta estava a corda. Olhei e pensei que queria ter um baloiço ali, debaixo da árvore dos limões, onde podia passar o meu tempo de "nada" baloiçando sobre as flores amarelas enquanto o meu avô cavava... descasquei e comi a banana enquanto olhava a corda, apanhei as flores e comecei a fazer a minha coroa amarela... passaram-se algumas horas inertes. O sol punha-se ao fundo da estrada de terra, as andorinhas cantavam e o vulto do meu avô surgia, por entre a imagem, escuro. Arrumei tudo na mala, tudo à excepção da corda na qual cosi algumas das flores. Fiquei com ela na mão enquanto esperei que o meu avô fosse colocar as enxadas dentro do tanque. Ao fundo da rua ecoava já a voz da minha avó; "Oh Flores, anda jantar". Disse-me; "Vamos minha menina que já é hora" , e deu-me a mão em modo protector... enquanto caminhávamos lentamente a voz da minha avó ainda se arrastava quando ele perguntou "e isso para que é?", respondi "era a corda do meu baloiço, não deixei a avó ficar com ela... fazes-me um ?", "Já não temos árvores à beira da casa e a avó não te quer longe que podes aleijar-te", enquanto o dizia tirava do bolso esquerdo da camisa o maço de cigarros, pacote cinzento e acendeu um, "não aleijo , pumeto" , riu "ai vocês, vocês"
Passaram-se alguns dias e eu arrastei a corda comigo até as flores murcharem, um dia esqueci-me dela, talvez tenha sido no dia em que a minha mãe teve uma tarde livre e me ensinou o que eram as letras, num pequeno livro sobre um robot. Foi num fim de semana em que todos os meus tios almoçaram sardinhas e feijão frade que o meu avô me chamou para junto dele enquanto limpava cabaças e me perguntou onde estava a corda, "não sei" , apontou com o nariz para a frente e vi-a pendurada no estendal com dois nós em cada ponta. Olhei-o sem dizer nada, "O avô lembrou-se que baloiço não podes ter, mas saltar à corda podes sempre, onde quiseres", "o que é isso ?"... O meu avô tinha 65 anos quando me ensinou a saltar à corda, durante alguns anos foi uma das minhas diversões preferidas, banalidade aparente, sei... mas a verdade é que passados 20 anos tenho ainda essa memória guardada em imagens estáticas num dos quadrados amarelos do meu cubo mágico.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

assenza

Entra.

Convido-te a entrar.

Senta-te na poltrona e ameaça-me a calma. Enche o copo com suspiros e esvazia-me os bateres do peito.

Pouso os lábios no copo de vinho. Vermelho como o sangue. Encorpado e com travo a... madeiras? Ou frutos silvestres?
Beijo o copo como se fossem os teus lábios. Quentes.

Sofre uma voz que escolhi como banda sonora.

O resto dispersa-se por entre espaços de silêncio pelo corredor.

O chão em madeira rectangular arrefece por entre o tempo que não é tocado.

Eriças-me a pele. Como gelo que toca em pedra quente.
Digo-o no espaço de um lábio que se morde. Mas não precisaria, porque o sabes.

Sinto o teu cheiro que se evapora por entre o respirar do teu peito. O teu e apenas o teu.
Não se confunde, mas divaga.

[I want you]

Passeio os dedos pelo meu pescoço simulando o que faria no teu corpo, se te tocasse, mas não estás...

Escorrem as últimas gotas pelo copo e deixo que me escorram pela boca como o desejo.

Quero o teu cheiro na minha pele.
O teu calor espalhado pelo meu corpo.
O teu sabor impregnado na minha boca.
TU.

Se te disser que te beijo em pestanejares, compreendes?
Se te disser que te falo em sorrisos, entendes?
Se não te disser, ouves?

"Sei que tudo é definitivo e nada é eterno." Disse ele.

Eterno o sabor
Eterno o sentir
Eterno o saber

Definitivo o indefinido
Definitivo o sentido
Definitivo o momento

Nada de nós em nós é eterno, definitivamente.


imagem retirada do Google

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

leeg


Bate no peito secura
azul
esverdeada

Desdobram-se as mãos por entre pequenos espaços livres no vazio

uma porta que se abre no fundo de um corredor escuro

uma voz que chama, semi viva...

Não há passos.
Inércia.

Ela seguia.
casaco preto.
ténis gastos na sola.
atacadores a arrastarem pelo chão.
gorro que esconde um cabelo longo e negro, liso.
um lenço semi enrolado envolvendo o pescoço.

Ia...

a noite desenhara-se já em espaços negros pela rua
as sombras antes escondidas do sol, estendem-se agora sob fracas luzes ao longo da rua.

Algumas músicas saltitavam nos seus ouvidos.

Não estava triste mas sentia no seu peito uma tristeza recorrente...
Aquela que não se acoita num peito
Que não morre num sorriso
Que não é roubada por ninguém.

Aquela que a conhece desde sempre
que se esconde no canto da íris
no bater fraquejado do coração
no sinal que se adormeceu no seu rosto

Segue branca rumo ao escuro
sozinha
apenas com vozes nos ouvidos.

Vazia.
Não está vazia, mas vai sendo vazia em breves espaços que lhe arrepiam a pele ao tocar a brisa.

Olha um vago vazio sem dono que se estende pelo caminho.

Tocam sinos.
Passam carros.
Fortes luzes intermitentes.

Esqueceu o relógio.
matou o tempo em breves minutos.

Não há vontade neste espaço.
Mas segue.
Há um destino... ao qual escapa hoje... porque sim.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Do Vir


Sorrimos num espaço perdido
de mãos dadas no vazio
Soltamos palavras que não ouvimos porque o vento roubou...
ou talvez as tenhamos apenas esquecido

Será assim o tempo do nada
do amargo
do compulsivo

Prendo-me no teu pescoço
é o teu cheiro que me guia...

Engulo soluços, sorrisos, restos de mim
e vomito palavras que não respiram
que não voam
que se guardam por entre espaços vagos

Há caminhos

Há destinos


Há nadas.

Dou passos por entre quadrados sujos e gastos
e vejo pequenos desenhos que rastejam apagados
deixamos uma história para trás, sempre que seguimos em frente
e não consigo não ver a criança que corre atrás de quem dela se esquece...

Tornamo-nos algo
transformamos muito
guardamos nadas no espaço de uma vírgula

Suspiro.
Não há um fim.
Há um grito que se prende por entre o espaço que deixas vazio,abandonado.

[barulho]

repete comigo esse som tão estranho

[barulho]

estranho sempre as palavras repetidas, soam a nada

[barulho]

embrulho os braços no tronco inerte e gelado que esqueço em voos distantes...

[barulho]

sentes o eco que se estende no silêncio de um espaço que não é?

[barulho]

esqueci-me do que te ia dizer
talvez não fosse nada
talvez não tenha voz
talvez nem exista

[barulho]

deixo as velas arderem até ao fim
ou sopro para que se esqueçam prematuramente?

[barulho]

tinha uma capa azul... mas não o li

[barulho]

às vezes esqueço-me que não andamos, dançamos

[barulho]

às vezes deixo-te para trás

[barulho]

às vezes esqueço-me de seguir-te

[barulho]

afinal não é a elas que estranho... é a mim.

imagem, quadro de Maria Helena Vieira da Silva