sábado, 10 de dezembro de 2011

Inanis

Um segundo.
Basta um segundo para tudo se desmoronar...

Há um tempo que se dobra e nos abstrai do relógio, como se as nossas células negassem a sua passagem.

A lareira acende-se aos meus pés em arrojados tons de vermelho, laranja e amarelo... segundos que me cortam o peito.
Algo me chama... onde, quando, quem?

Se te disser que o peito me morre em sopros de nada... que têm que ser algo caso contrário porquê soprariam? Acreditas?

Afasto-me do fogo... não consigo dormir, a cama está vazia. Não consigo ler, o meu cérebro viaja para outros espaços...
Olho o frio que se desenha do lado de lá da janela, nevoeiro... denso, nem parece dia.

Aperto o meu vazio em mim mesma, como se me abraçasse, mas não é abraço, não é nada mais que um gesto, vazio, em mim...

segundos em horas arrastadas. sem voz. nada.

Porque me bate no peito a morte do tempo, em águas calmas e silenciosas.
Porque sou desequilibrada no equilíbrio do banal... do comum, do repetido. Este compasso menor... que fica em dó sem subida de escala.

Perdi a voz no compasso de uma dança inventada.

Quando o tempo me beijava as faces e me entrançava o cabelo eu corria por campos abertos, sem pensar em depois ou amanhãs. Sempre me bastaram os desenhos que via nas nuvens, as histórias que fazia ao ver as imagens dos quadros que se penduravam em casa dos meus avós, as palavras que lia dos livros de capa grossa em casa dos meus avós, as perguntas do meu avô depois da ceia... Bastava-me um vestido com tutu e eu era já bailarina... bastavam os óculos da minha avó e eu era professora, bastavam as escovas da minha mãe e eu era cabeleireira, bastavam as canetas do meu pai e eu era empresária, bastava um conto de fadas e eu acreditava que estava num...

Um pequeno livro em branco...

Quando o tempo me beijava as faces eu sentava-me no baloiço debaixo da laranjeira e acreditava que estava a voar, eu saltava à corda e acreditava que saltava num trampolim, eu ouvia os discos de vinil e acreditava que estava num concerto, eu roubava as camisas de noite da minha tia e achava que era uma princesa...

O tempo pára de nos beijar. Acredito que só nos apercebemos disso bastante tempo depois. Em finais. Ou em epílogos. É a ordem natural de tudo.

É nestes espaços vazios que mais me recordo dos espaços que me preenchem. Que quando me olham ninguém vê...

Hoje o tempo rasgou-me o olhar. Embrulhou-me o espaço e arrefeceu-me o peito. Porque o calor não dura sempre... mas o frio também não.

Perdoem-me os sãos... o tempo pode já não me beijar as faces, eu posso já não acreditar nas coisas da mesma forma... mas a idade não mata a sonhadora que se aninha em borboleta dentro de mim... aquela que precisa de voar em dias ímpares, que precisa soprar flores em dias sim... que precisa de silêncios em contemplação, que gosta de viajar sem ter que se mexer.

Nem hoje, nem nunca.

Imagem retirada do Google

Um comentário:

Jace Beleren disse...

Fazes-me lembrar a infância. Ou melhor. A criança que vive em cada um de nós através das memórias. Perfeitas para alguns. Pouco felizes para outros. A imaginação que nos corre no sangue, essa é só nossa. O tempo encarrega-se de a transformar e para o seu lugar vêm outras preocupações decorrentes da normal evoluçao da vida. A responsabilidade de crescer. Relembro o que alguém certo dia me disse que a vida é cíclica quando vivida na sua plenitude. Hoje és mulher e relembras talvez com alguma nostalgia uma infância feliz. A nossa memória é essencial para sabermos de onde vimos mas é a nossa imaginação que muitas vezes nos conduz pela vida e nos mostra quão boa ela pode ser. Uma pessoa sem memória é uma pessoa sem passado. Viva o presente sem nostalgias. Guarde as memórias e conserve a sua imaginação para o futuro. Ser-lhe-ão porventura muito úteis.