quarta-feira, 18 de julho de 2012

Inverno



O frio embrulha-se na pele. Como se esta não fosse suficiente. Como se não fosse uma proteção. Como se esta não existisse. Infiltra-se como se chegasse aos ossos. Eriça. Excita. Como o eterno lugar comum, o gelo que queima.
Escolho um casaco de lã, embrulho-me como se fosse para a rua. A rua que fica do lado de lá da janela.
Olho, o fim de tarde que se desenha no horizonte. O mar. O vento.
Inverno
Estação.
Passado.
Músicas antigas, bandas sonoras de filmes que são também o passar de histórias minhas, comuns.
Os sorrisos serenos de quem vê de longe. Quem recua no tempo. Sente o que já passou, como se estivesse ao meu lado. Vivo. Do lado de dentro do vidro.
A cada letra uma imagem que se desenha do lado de dentro do peito, por baixo da pele, no negro da íris. Abraça-me em forma de gelo, gelo que aquece no peito. Abraço-a de volta. Dançamos lentamente ao compasso da letra…
I’m fine baby, how are you? Lugares comuns, banalidades…
Não são apenas dias, são anos presos nas pontas dos cabelos que ainda não foram cortados…
Lembro. Lembro a voz da minha avó misturada com o cheiro do pão no forno de lenha. A voz que dava resposta aos meus queixumes em idades de porquês. “As histórias têm o tempo de um fio de cabelo. A raiz vai crescendo, acompanhando, vivendo, vais cortando pequenas pontas. E com elas vão as memórias que ficam para trás. O cabelo demora a crescer, mas quando cortares essa última raiz que o tempo empurrou… a memória vai… e será quase como se não tivesse acontecido”
Sempre tive aversão a cortes de cabelo. Sempre achei que me cortam demais. Sempre fiquei presa no passado. Nas memórias. Nas raízes que demoram a cair, talvez tenha que cortar o cabelo mais vezes.
Suspiros silenciosos que se prendem num pequeno pestanejar.
A música pára, a dança também. Abraço o frio que me gelou os dedos e a ponta do nariz.
Serenidade. Aquece os lábios, desenha sorrisos.
Não preciso cortar a raiz… há sempre um cabelo que cai, todos os dias.

Imagem de Klimt

5 comentários:

Anônimo disse...

Porque será que toda a gente não confia nos outros. Basta perguntares. Com simples perguntas e eu terte-ia revelado aquilo que querias saber. Decidiste optar pelo caminho mais difícil e quebraste a confiança que depositei em ti. Sinto-me enganado e usado. Fico sempre com a estranha sensação que o parvo sou eu... e saber que com simples perguntas terte-ia revelado que nada mais tenho a acrescentar àquilo que foi dito. Faz-me um grande favor. A partir de agora esquece-me. Estou doente e não tenho vontade de jogar o jogo do gato e do rato. Lembra-te de esqueceres-me.

farfalla disse...

este comentário deve estar equivocado! Não tenho ideia ao que se refere.

António João Mito disse...

tinha saudades de te ler. e continuo a fechar os olhos, depois disso, a imaginar um cenário para as tuas "histórias".

Beatriz disse...

Adoro ler-te, minha querida *

farfalla disse...

Obrigada BIA!!!!!!!

Obrigada António! :)