sexta-feira, 19 de junho de 2009

Diferente


E assim ficou. Nadando em torno de círculos de areia.

sonha
recua
avança
saltita

céu
azul
azul
mar
cheiro a mar
grãos de areia
azul
ondas

Dança... Embala-se por entre o vento, brinca com os salpicos que a tentam alcançar e ri ao sabor desse som sem definição... um tom agudo, profundo, som...

o mar molhou-lhe os pés e sentiu-os enterrar na areia impedindo-a de rodopiar... e gostou... gostou que algo a fixa-se... pela primeira vez

sem rodopiar

sem saltitar

Sem círculos.


Diferente... foi um número diferente...

[A]penas que deslizam por entre asas

terça-feira, 16 de junho de 2009

Res Aliena


Escorregou da Lua.

Rebolou pelas estrelas até aterrar.

Descobriu não saber andar.
Descobriu não saber comer.
Descobriu não saber respirar, sorrir ou mesmo olhar.

Nem por isso se travou.
Seguiu.
Sentiu.
Provou.

Em espuma de incertezas caminhou buscando as interrogações das quais origem não sabia e das quais medo não sentia.

Pequena bailarina por entre uma verdade abstracta. De maneira exacta aprendeu a saltitar tudo o que no seu destino surgiu, ainda que sem o perceber.

[Espelho]

Onde estás?
Quem foste?
Quem és?
Quem serás?

Sinto falta de ti que não conheci, gosto de ti presente, da mesma forma que só tenho que agradecer ao que agora é passado.

[Noite]

Fogo escorre pelo pescoço em sentido contrário. Sopra ao ouvido estremeceres roucos. Molha os lábios e espalha calor. Roda um corpo contra a parede e impede-o de mexer. Olhares, apenas olhares por entre o resto.

[Suor]

Quem serás?
Onde estás?
Quem és?
Quem foste?

[Silêncio]

Reticentemente se aninha sobre si… olha as mãos e os seus desenhos, caminhos… serão sempre não mais que caminhos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Mariposa


Som de nada no fundo do círculo.

Dançam rodeados de vento azulado lúcido.

Quem são?
Quem sou?

Silêncio pontiagudo rasga sons que rodeiam o limite do espaço.

Pára
Olha
Roda
Toca
Busca
Desespera

Sem saída….

Completamente sem saída…

Vejo-a no cume do raio. Aninhada. Assustada. E contudo… feliz.

Vi-a outrora sem chão, sem piso para marcar, sem caminho, sem noção… vi-a só e querendo manter-se só. Sabia que talvez pudesse ser mais, mas ficava. Ficava sempre. Vi-a pequenina… semente, sim, semente, observei de onde veio e onde está. Feliz.

Há dúvidas que pairam

[Sempre]

Pondera o final.
Matar o espaço.
Rasgar
Libertar as asas
Voar

Conseguirá voar?

Arrisca.
Rasga o casulo.
Vai.

Voa Borboleta…

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Passava...




Passava.
Leve brisa.
Suave fervor.
Passava.
Nascia nos lábios.
Pescoço,
Ombro,
Peito.
Lábios.
Passava.
Aroma a doçura.
Frescura etérea.
Passava em jeito passageiro de viajante apressado.
Aperta.
Abraça.
Agarra.


Foge em compasso melancólico.

Baixa os olhos… olha para trás… é seguida por nada, deixa que o vento lhe empurre o cabelo para a face e assim esconda a lágrima.

Passava.
Pequenos passeios desalinhados.
Semáforos intermitentes.
Sol escondido.
Folhas rasantes.
Sozinha.
Passava.

Mãos na algibeira.
Música.
Pensamentos apressados, ruídos, amargos, destoados, solitários…
Passava pela vida hoje em tom de turquesa e ao compasso da chuva que não cai do céu.
Ping_Ping_Ping_Ping

quarta-feira, 11 de março de 2009

Desiderio


Corrói.

Amarra.

Estilhaça.

Rompe.

Estala!

Há uma luz escura que envolve o momento.

Cama mexida e nua ocupa o fundo de uma divisão.

Fogo. Calor. Suor. Sexo!

Há um caminho indefinido que chama, não é mão, não é voz, corpo, desejo reflectido no olhar.

Espinha amarrada ao ventre em borboletas, nuca inquieta, pele esquentada.

Quero.

Toque. Enlace. Quebra. Gosto. Roda. Sentir.

Faísca. A espinha caminha mecanicamente nessa direcção.

Leva-me. Arranca-me a mim...

Abandona o mundo e leva-me em silêncios que sussurram suspiros, faz-me tua em estremeceres suados.

O corpo evapora contra a parede fria. O peito arfa de encontro ao meu pescoço.

Não quero ver-te, apenas sentir-te.

Quero comer-te a boca em colheradas fartas, quero cravar em ti as unhas até que rompam a pele.

Quero-te em remoinhos aninhados que adivinham furacões.

Em mim, sobre, em torno, dentro, fora.

Rasga-me a alma e amassa-me o desejo...

Mata-me em voo de borboleta com asa queimada...



Sim?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Equação


Pesa.


Pesam os dias, as horas, os minutos, os segundos, até mesmo as milésimas.


Pesa a natureza, árvores, flores, mar, rio, ribeira, riacho...


Pesa o dia, a noite,o amargo, o doce, vontades, decisões...


Questões pesadas à discrição.


Diria que o mundo é obcecado com o peso errado... quanto pesa o mundo?


Quanto pesa uma palavra, um sentimento, uma acção no teu mundo?


Quanto pesa um sonho ou mesmo um sorriso?



Quanto pesam as minhas letras? Demasiado eu diria... nada, dirás tu eventualmente


Pesamos o mundo de forma diferente.


Como podemos ouvir uma voz que não tem som?

Como podemos calar uma verdade não verbalizada?


Esquece...

Esquecer parece difícil, mas é mais fácil que a aparência eventual...


Lembramos com cheiros... somos animais afinal...

Proust lembrava o cheiro de um chá e consequentemente a madalena que o acompanhava... o cheiro despoleta a recordação...


Os corpos têm inerente um cheiro inconfundível, que permanece cravado na memória... o tempo, o mundo e o seu peso inerente podem apagá-lo, sem presença do corpo não há cheiro... sem cheiro... eventualmente tudo o que não é importante se esquece...


[SabiasQueHojeMorri?]


Em doçura que me escorregou pelos dedos para ser desperdício no chão, sem mão que a acolhesse...


[Sorriso]


Não dói a doçura sem corpo onde acoitar-se, engraçado mas de facto não dói...

Dói bem mais a saudade de ser o chão frio de pedra inerte.


Se ao menos o mundo não pesasse tanto... talvez o som fosse audível...


Silêncio permanece então.


[QuantoPesaARessureição?]

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Janela


janela aberta ao fundo do quarto.


corredor de memórias indecifráveis.


equívocos, mistérios, susurros.


chuva como banda sonora e vento a moderar a temperatura ambiente.


Lembra a menina na rua que indiferente à chuva escolhe percorrer o caminho ziguezagueado e azul escuro da calçada do passeio, enquanto os pais zangados chamam por ela mais à frente,


Lembra que outrora fora ela a menina que fugia de casa para dançar à chuva...


Escuridão rasgada por linhas de luz.


frio


frio


nada mais que frio.


sem som, sem cheiro, alheia ao que a rodeia.


Voam, da vida fora da janela, sons


[que ela não ouve]


invadem o quarto e preenchem-no


ela permanece


vazia.


há quem a olhe,

há quem a beije,

há quem lhe fale,

há quem lhe dê,

há quem lhe tire,

há quem a ame,

há quem lhe tenha ódio,

há quem a magoe,

há quem a escute,

há quem a cale,

há quem com ela cruze...


Vê-la-ão por entre tanto que a rodeia?


[ela não vê]


Aninhada no canto direito oposto à janela respira notas de vida que se escapam por entre o vento, de olhos fechados imagina como será o azul, como será o sorriso de quem voa por entre braços de conforto, de quem não rasga sons e segue sem olhar para trás...


[ela não é]



terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Boa Noite



há um fogo


um respirar sem oxigénio


sem compasso


respiração que inspira nada mais que vazio.


Será?


Há os gritos... ao fundo...
O corpo manso na madrugada.
O fogo no adormecer do dia.


Haverá?
Por quem, em quem, com quem, como?


[lê baixinho por mim]


no calor que se esvanece por entre os lençóis lembra o corpo presente, antes, bem antes.


[Animais]



recorda
vive
lembra
esquece
constrói
reconstrói
destrói
rói-te em resmas de pontos perdidos por entre tempo espaçadamente esvaido
transparente
descrente
isso, ausente


[xiu]



compasso em dó...
frente...
pé ante pé... não vá algo acordar...


[explode]


corre
cai
tropeça
enrola
estende


[salta]


ri
sofre
morre
renasce
sê reminiscência de sonhos de criança
sê noite
sê fogo
sê longe
sê inexistente
sê presente no vazio
sê sonho... sempre sonho, o teu sonho, aquele sonho...



lembro os cheiros... sempre os cheiros...



[...]



Boa Noite

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

impressão de pressão


Há no ar um cinzento enegrecido. Por entre as gotas vê uma impressão… Pressão que a empurra sobre si mesma... sabe a arrepios na espinha com travos a incerteza.
[Pestanejar]
O ar está carregado. Conta as paragens até chegar a casa. Não há vozes acolhedoras, não há sorrisos. Sente-se só entre a multidão. O vento gelado dá-lhe estalos segundo após segundo. Caminha acompanhada pelas folhas de Outono tardio que varrem o chão.
[Pestanejar]
Chora por dentro. Chora a falta de esperança, o desconsolo, o desamparo de si mesma. Chora em silêncio e sem lágrimas… e ninguém à sua volta vê o choro que o sorriso esconde… só…
[Pestanejar]
Atira a vontade ao chão e pisa-a nos intervalos da calçada. Está enegrecida do corre corre que por ela passa.
[Pestanejar]
Alma cansada. Indecisão contínua. Pensa que talvez os astros estivessem certos demais…
[Pestanejar]
Quer um peito onde acoitar-se, não um qualquer… aquele, apenas aquele mas hoje ele não está presente para silenciar o resto, não há mão, não há carinho há apenas o frio que invade o casaco e o parece querer arrancar do corpo… corpo frio, corpo sem rumo, corpo sem acção.
[Pestanejar]
Talvez não seja suficiente, talvez ela não seja tanto quanto pensam, talvez ela seja apenas nada… talvez ela não seja aquilo que esperam dela. Talvez seja apenas um vazio bem disfarçado.
[Pestanejar]
Talvez seja inconstante demais ou constante em excesso. Talvez não seja nada além de uma ilusão. Talvez não seja, apenas.
[Pestanejar]
O dia morre a cada alvorada, não há tempo marcado no calendário nem relógio que marque horas, os números apagaram-se e os ponteiros desfizeram-se… nem vento tem som, há silêncio fora dela… ou barulho a mais dentro… como diz, é sempre um questão de perspectiva…
[Pestanejar]
Quer chegar a casa. Quer bater a porta atrás de si e encolher-se no canto mais escuro do quarto mais escuro da casa mais escura do prédio mais escuro do quarteirão mais escuro do bairro mais escuro da cidade mais escura do país mais escuro do planeta mais escuro…
[Pestanejar]
Talvez desapareça no meio da escuridão. Talvez perca esta vontade no repouso do peito que anseia… talvez deixe de ser o “talvez” e o “não sei” que tanto a caracterizam… talvez morra… ela… ou eu… já nem sei.
[Pestanejar]
Há luz ao fundo do túnel. Pergunto: conseguirá brilhar com ela?
[Impressão de pressão...]

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Alter Ego


Tropeçava nos caminhos que desenhava enquanto corria por entre as ervas do campo. Não era uma criança que seguia em linha recta, preferia os “zigue-zagues”. Colhia aquelas flores amarelas sobre as quais nunca questionou o nome. Estendeu a toalha que roubara da gaveta da mesa redonda que habitava havia já muito tempo na cozinha da avó. Do cestinho que tinha levado emprestado da dispensa tirou os ingredientes do seu lanche campestre, pão, geleia e uma maçã. Cruza as perninhas, ainda pequenas, e inicia o seu festim privado. Partilha com os pássaros as migalhas do pão e avista já as formigas que irão roubar o que resta da geleia. Enquanto limpa com uma mão a maçã ao seu vestido vermelho às bolinhas brancas estende a outra para alcançar o livro que roubou da estante do avô… ainda mal sabe ler mas gosta de tentar perceber aquelas histórias maçudas que saíam da cabeça de outros. Ama os livros já desde tenra idade, há neles uma magia que nada mais tem. Naquele quadrado onde passam imagens ela não pode interferir… as personagens já existem, já têm cor e vida que lhes é dada por outrem… também gosta dessas mas não pode mexer nelas, com os livros não é assim… nos livros ela pode participar na criação das mesmas… tem espaço, tem liberdade… enquanto trinca a maçã vai colorindo as imagens ao ritmo da leitura… diverte-se e o tempo passa. Quando for grande quer escrever histórias, não sabe bem quais apenas que as quer escrever…


[Tempo]


Espelho. No reflexo busca algo um resto, uma migalha de sonhos antigos. Nada. Percorre-se detalhadamente entre destroços do que outrora fora esperança.

[Lágrima]


Aquece a alma.

[Silêncio]

Pergunto onde está a sonhadora? Não há reticencias? Onde estão os castelos? Onde está a coragem?...

[Pestanejar]

Esqueceu-se dela algures por entre os campos que deixou de percorrer, algures por entre os livros que deixou de ler, algures no rasto de alguém que deixou de ser…

[Pausa]

No reflexo avisto um sorriso. Não dela. É outra…

[suspiro]

Há corpo presente no seu sorriso, há beijo, há toque, há sabor, há algum significado distinto.
A geleia e a maçã já não são iguais…

[Existe?]

[Resiste?]

[Silêncio]

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Subtrai


Subtrai, não somes.
já basta aquilo que sozinha multiplico...

Subtrai as interrogações, não somes questões
eu multiplico as respostas.

Subtrai as exclamações, não somes emoções
eu multiplico sempre o ênfase

Subtrai as vírgulas, não somes pontos finais
eu multiplico-os sempre em reticências.

Subtrai, não somes
já basta eu multiplicar-me constantemente...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Fio de Fantasia



Presa em fio de fantasia desenhou um sonho amarelado e azul, daqueles que a meio fundem cores e invadem o espaço um do outro.

Eram meias horas e estava a acordar, queria sempre dormir mais “mei hora” como dizia na sua voz doce de sussurro caramelizado que alguém chamava à realidade. Realidade… saberiam eles que a sua realidade era tão mais diferente? Sim tinha príncipes, sim tinha fadas, sim tinha bruxas, sim tinha um fauno, monstros e companhias… tinha perguntas sem resposta, tinha reticências sem sequência possível, fios sem meada. Saberiam eles que ela sempre foi real num local que mais ninguém via?… enfim…

No fio da fantasia acordou sentidos.

[segredo]

No fio da fantasia viu cor.

[sopro]

No fio da fantasia desenhou passos.

[azul]

No fio da fantasia escondeu sons.

[veludo]

No fio da fantasia soprou letras.

[silêncio]

No fio da fantasia olhou a larva.

[fechada]

No fio da fantasia abriu braços ao sonho.

[casulo]

No fio da fantasia deixou-se guiar em pós de perlim pim pim atrás de sereias e unicórnios que perseguia em cada sonho que colava ao fio de fantasia… fechou-se sobre si mesma.

[rasgar]

Cresceu…

Abriu asas…

Foi borboleta…

É mulher…

Voou?

Em fios de fantasia o segredo não é criar…


[colar].

domingo, 13 de julho de 2008

Só para que saibas


Ela abre os olhos.

Tirada de um sono profundo. Sono velado pelo sono de outrem.

Ela acorda e não vê a parede. Vê-o a ele, ao seu braço cansado de acolher o peso dela durante a noite, e não outro.

Abre os olhos e não se lembra de ninguém fora daquele momento… não tem saudades de um passado… não sente presença de outros corpos, outros toques. Por entre os lençóis está ele… Ela sorri. Sem medo. Serena.

Não há mais nada além daquele momento. Conforto. Doçura. Sabor. Odor. Ardor. Sentir. Confiar. Sorrir.

Gosto do teu cheiro por entre os lençóis, gosto de sentir a tua presença mesmo quando não estás. Não é obsessão, é outra qualquer coisa que rime com isso.

Acordo contigo e deixa-me dizer-te que… é bom fazê-lo ao teu lado e poder começar o dia respondendo em eco à voz doce que me desperta com… “Gosto de Ti”!