quinta-feira, 1 de julho de 2010

Purpúria




sem voz
lábios, dedos.

como se abraço ou som fossem inúteis.

Eu vi, tudo em tons resguardados a véu opaco.

Escondeste os sons aos meus ouvidos, os dedos ao meu corpo,
não tinha dias, horas, tempo banido. Mas vi.
Vi e vejo os atalhos que cobrem as longas estradas que crias-te para nós
em terra batida e barrenta... Vejo as marcas que os meus sapatos de falsa história
deixaram para trás, e que não quero apagar.

Não viu, não vê, nem verá. Mas eu sim.

Inventei-te por entre todos os espaços vazios
Pintei fora das linhas... mesmo sozinha.

Escondi-te por entre madeixas e cheiros
e ouvi tudo o que não veio dos teus lábios
em outras vozes... mais desenhadas...
mais profundas... mais fantasiadas.

Não há fim para quem não teve início...
Não há dor onde ninguém se iludiu...
Não há nós em linhas que não se cruzam...

Há imagens baças escondidas por entre olhares perdidos num horizonte púrpura
e músicas que roçam bandas sonoras sem película.

Há a memória que inventa espaços vazios
e os olhos que molham tantos outros repletos de nada...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Pica Bu


uma voz perguntou "Como desaparecer completamente?"

Eu disse: "Tapas os teus olhos, como fazem as crianças quando brincam ao cúcú"...

Os acordes ouviam-se ao fundo... e senti-me entrar num outro mundo... um mundo em que brincar era o centro da existência

Imaginar mundos outros, fantasias incoerentes...
subir a uma árvore e fazer do ramo o meu navio
empurrar o baloiço e abrir os braços como se estivesse a voar...
roubar as roupas da minha mãe e pintar-me... fingir que era "grande"

Pensar tardes inteiras em quem ia ser quando crescesse...
Onde ia estar...

E no rodopio de uma canção... de livros... se passaram horas, dias, semanas, meses, anos...
E cresci... longe de tudo o que imaginei... apenas perto da fantasia.

24 anos que correm furiosamente rumo aos 25... e só a fantasia se mantém... as tardes perdidas olhando um horizonte que pinto com histórias sem sentido que guardo só para mim, que pinto apenas com as minhas cores...

E se fechar os meus olhos... continuo a fantasiar que ninguém mais existe... apenas eu, no meu mundo do nunca... que sempre ficou.



imagem retirada do google

sábado, 5 de junho de 2010

Tre


voz imperfeita, como imperfeitas são as razões de se ser. estar.

Ouço um som imundo perdido por entre flashes epilépticos. Indirectos. Inodoros.

Repulsivos, ainda.


Quero lama no meu banho

Quero terra no meu peito


Quero fins para que haja um início.


Quero o vício, aquele vício antigo de caminhar de peito aberto pelo caminho de outros.


Mas a condição é situação de desunião de mim comigo.
imagem Misha Gordin

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Due


Sim. Não. Talvez. Não sei.

Mecânica. Repetitiva.

Repito sons aos quais já não atribuo significado porque são banais. mortos. nojentos.

Bolhas.

Como se o restante mundo vivesse numa bolha e a minha jamais cruzasse caminhos.
Como se tudo fora de mim fosse um vazio por não haver sentimentos iguais.
Como se fosse existência sem vida, marioneta, boneca de porcelana partida.
Borboleta negra de tentar chegar ao sol e de asa partida por voos errados...

Árvore que apenas existe para um só local... e mover-se não mais que sob o sabor do vento.

Espero que ela venha, porque me parece mais certa. Sempre senti que lhe pertencia e cada vez mais quero que se apresse.

Se um rasgo voasse pela minha janela...
Se um som me soprasse no peito...

Se eu não fosse eu... talvez alguém fosse feliz.

imagem retirada do google

terça-feira, 18 de maio de 2010

Apud


havia um tempo, perdido no tempo do algures.. onde nenhures existia.

Cabia ao som marcar o compasso do passar... mas nada passava... trespassava eventualmente.

haviam caminhos sem trilho... passos sem marca...

deixámo-nos em compassos errados e errantes. escolhas desencontradas e quartos que queimam ao sabor da lentidão de um corpo que se funde.

Quem éramos no silêncio?
Quem fomos no fogo?
Quem somos na cinza?

havia um tecido que me abraçava em sentimentos não partilhados
e mãos que se colavam no invisível.

onde estão os restos?
onde guardas os segredos?
onde gritas os medos?

inverto o mundo e escolho o céu como chão.
deito a mão ao mar, acima de mim
e mergulho em voos de oceano
onde os peixes voam e as aves rastejam...

inverter o que sinto e nem no inverso encontro o fim

vou ao fundo do peito cérebro... torço-me em mãos de ossos... e continuas a soar-me a violino de peito quente...

se o tempo fosse outro
se o som fosse morto
se a voz do silêncio abafada...

estaríamos?

continuariam a ser as palavras do silêncio as que mais saudade deixariam?

Se não fosse eu, nem hoje
Nem tu, antes
Seriamos assim?
Estaríamos lá? Onde o chão está sempre 2 metros abaixo de nós?

Talvez no enfim, sem fim mas finalmente...
Onde a mentira é reticência de um final...

imagem retirada do google

terça-feira, 30 de março de 2010

Latente


Latente sossega o corpo dormente

Cansas-me o peito em canções mudas
Gastas-me os dedos em esperas penduradas em mesas de rua
Cegas-me o olhar inacabado no som do rasto

Simpatia incompleta repleta no espaço reticente.

Colo a tua mão ensanguentada ao meu rosto, pouso a minha mão sobre a tua.
Silêncio.
Espaço.
Compasso.
Sou brisa no teu medo, és lágrima no meu peito.

Olho-te. Dura. Fria. Negra. Fulminante.

Não te perdoo que não me vejas... nem mesmo no sangue das tuas marcas.

Somos um nada momentâneo. porque escolhemos sê-lo. apenas.

Colas o teu corpo ao meu em símbolo de harmonia
Preto no branco em face salpicada a sangue...
Brincas com os dedos nos meus lábios
pousas a mão na minha nuca e suspiras
suspiras em harpas descompensadas
presas em colares de missanga expostos em montras comuns.

Abraças-me em contra-baixo de corda vibrante

e abraçados sonhamos solidão em gotas de luz senil...

imagem retirada do google

sexta-feira, 26 de março de 2010

A latere



Perguntei
Onde estava o corpo e a mente
As memórias e os sentimentos
O toque que não vem
O sabor que não sinto

Quem estava no meu lugar...

Esqueci os passos do tango
O segredo do olhar
e até as palavras de seda
Escondi-me no canto à esquerda da janela
Olhei a escuridão de dentro

Não te vi

Ouço a tua voz ao longe
martelada a veludos certeiros
Mas não te vejo
Sinto apenas

Perguntei para onde voam os sonhos quando dormimos
Aqueles que me acompanham enquanto caminho
Que me beijam no vento
Que me acariciam na chuva

Perguntei quem me pôs aqui
Quem te pôs aí
Quem não nos pôs lá

Só por entre todos.

Ele não vê o cinzento... Nem o arco íris, suspeito
Não ouve as reticências no coração que deixo nu
debaixo dos lençóis

...entrancei as mãos no peito algures por entre o martelar que se esconde no cabelo
não vi o chão calcetado
nem a chuva
nem mesmo o céu cinzento
não vi o cheiro da multidão
a solidão do café
nem o som dos passos solitários.

Dou a mão ao vento livre
Esqueço-me nele

Abro um livro que não escrevi
onde deixo reminiscências de outros que não li
num tom melancólico de segredos subtilmente efervescentes debaixo da pele
branca do sol que recusa
Rasgo páginas em branco
salto parágrafos e negligencio a pontuação
numa criação que me transcende

Vi as asas que voam sem corpo
o fogo que queima sem oxigénio
o corpo que se alimenta na ausência
E a metamorfose que tarda em chegar

Vi a mão que embala a voz correndo o pescoço
os lábios que beijam a ponta do nariz
os olhos que entendem o que escondo

Afundei-me num poço que não era meu
Desenhei cópias imperfeitas de pinturas outras
e criei-me em devaneio...

Vomitei-te em borrões coloridos
amarrotei a tela e cuspi-te para o vazio do universo

Esquizofrenia letrada em significados ausentes

Perguntei
Não respondeu.

Vejo-te mais quando não te olho...

E as cores do arco íris jogavam xadrez com as borboletas...



Pintura de Jackson Pollock

quarta-feira, 24 de março de 2010

OutInside





Espelho a meia luz...

reflexo...

Quem?

Por baixo de todas as capas não se sabe
Retira as camadas de maquilhagem
As pinturas cubistas
renascentistas e rupestres
os arco íris e os borrões

De olhar vazio quis cortar o mundo de dentro do peito.
Rasgar o Universo
Arrancar os sonhos...

Por entre os camaleões e as metamorfoses não sabe quantas vidas perdeu...

Não se vê em pureza nua

deixou de se olhar tem tanto tempo que deixou de se ter nesse tempo...

Nem na nuvem
Nem na água
Nem no toque
Nem no gosto

prova a pele em busca de reminiscência...

Nada.

Sabe não ser uma folha em branco...
Mas por um minuto, apenas um minuto quis estar limpa de tudo

Do lado de fora...
no rosto jamais no olhar...

segunda-feira, 22 de março de 2010

Acácia


O campo era verde e eu corria.
O dia era banal e eu corria.
O tempo não existia e eu corria.
Podia ser ninguém mas corria.
Podia não ter alguém mas corria.
Podia ainda ser deserto ou livro em branco mas corria.

[YouWillNotDieWhoYouWereBorn]

Era uma alegoria de pureza por entre sons perdidos
Um quadro renascentista com apontamentos cubistas
Deuses confusos perdidos na religião geométrica
Um sol que brilha num buraco negro
Uma criança que corre no campo verde, atrás de nada e levando tudo na palma da mão...

[IFeelItAll,IFeelItAll]

O sol que queima um ombro nu
Uma esplanada de estranhos
Um gelado que derrete
Uma brisa promiscua que beija a todos
Um momento preso numa imagem

[I'mAlwaysInThisTwillight]

Sem saber perdido em sabores alheios
Passos de ferros enferrujados e verga moldada
Sons ausentes em sentimentos presentes
E pedaços que morrem ao passar do tempo...

E eu apenas não sabia que a brisa os podia levar...

quarta-feira, 17 de março de 2010

Q


quero chorar num peito que não é o meu
num choro que não se ouve
num sonho que não se perdeu

quero dormir numa almofada sem o meu cheiro
num sonho raiado a luz
num suspiro que não ouço

quero aninhar-me num chão que não tenho
num frio que não existe
num morrer que vive

quero ver-te num tempo outro
num momento preso
num sentimento difuso

quero rasgar a dor
comer-lhe o coração
pisar-lhe o olhar

quero ser um não querer
inerte na dor
morto no saber

quero não ser eu agora
não voar de pés no chão
não sentir o mundo nos olhos
não te ver de olhos fechados... em todo o lado

segunda-feira, 15 de março de 2010

vryheid


vi um sonho
cascata em arco íris brilhante
como pássaros que livres voam rumo ao azul quebrando o branco
mãos que se tocam selando desejos comuns
sorrisos que se partilham em amor irracional

sons
sabores
arrepios em espinhas espirais

vi um mundo que não era meu
entrei

sinto o vento
a água
as árvores
unidas em diferença na igualdade...

unida a um desejo que queima no ventre e se exprime nos lábios.

acreditar
que há verde no horizonte de todos
brilho nos olhares mais escuros
doçura nas mãos alheias
força nos passos

e vou
corro na terra descalça
deixo os pés enterrarem no chão
grito sons desconhecidos ao céu
rio para a chuva
danço em mim com todos os que não conheço

sem medo
sem língua
sem nação

Salto!
Vazio
Branco

Apenas vida
Apenas una
Apenas sorrindo...

imagem retirada do google

segunda-feira, 1 de março de 2010

Uno.



Sopro aveludado em nuca de pedra púrpura.

Enterro a mão dentro do peito em busca de um tom bordeaux mas a única coisa que encontro são pequenas pedras de gelo rosa-velho...

Como se gotas de vida tivessem agora alterado o seu estado...

Chora ao som de um lamento alheio, chora-o como sendo o seu, abraça o peito e roda as ancas como se seduzisse um par na dança... Dança só... deixa que as sua mãos inventem companhia... escorrem pela face, ombros, braços, barriga, ancas, nádegas, coxas, desliza até aos pés... suavemente desliza até ao chão, rebola sobre si mesma, sem calor humano apenas o seu suor contra o chão frio. Rasteja e perde-se por entre a confusão dos sentidos. Sente toda a pele elevar-se numa onda eléctrica desde os pés ao pescoço... brinca com a sua mão fria alimentando o estímulo... Observa o corpo reagir em arrepio, rebola pelo chão e vê ao longe a marca do seu corpo nele... como se fosse de outro não seu.

Qual terá sido a transformação...

Pára a música, apoia uma mão no chão e levanta-se, observa-se no reflexo do vidro da janela, não se reconhece por momentos no calor que vem de dentro.
Vira costas à imagem e segue em passo flutuante até ao banho.

Veludos agrestes presos em reticências...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

wollen


Guardei-te debaixo da almofada.
Sem som. Preto e Branco. Filme.

slide esquecido algures.

Passaste por mim entretanto, mas não vi, ou não quis.

Hoje não deixaste que não te visse tocaste-me enquanto passava.

suspiro por entre o sangue quente que percorre o corpo...

escadas. quarto. porta. canto.

encostas-me no canto do quarto escuro, encurralada.
ajoelhas-te pousando a mão no pé nu de sapato perdido algures no degrau,
sobes em compasso reticente de quem não aceita deixar o momento morrer.
beijas-me o joelho e sobes...

mão, peito, ombro pescoço em sopro de sangue quente
boca
brincamos de lábios abertos enquanto as mãos exploram espaços outros.

subo em compasso de tic tac a tua espinha, enterro a mão no cabelo
suspiro no ouvido
beijos, unhas, carne, som, sabor...

ficamos colados em êxtase prolongado. sem olhar. sem falar. apenas colados em slide preto e branco de memória perdida na gaveta cósmica de um tempo em ampulheta suspirada.


imagem retirada do google