domingo, 17 de janeiro de 2010

Corpo Gémeo



é um choro que grita fora de tom em som agudo que rompe escalas
estrela esverdeada, contornada em tom de azul
como se todas as luzes estivessem acesas num quarto repleto de cegueira
como se as estrelas no céu não existissem

como se nada mais além de água vivesse no mar.

como se os degraus fossem invertidos
como se o voo fosse abaixo da terra
como se os passos fossem invisíveis
como se o toque fosse sem sentido
como se o coração não vivesse

é fogo amarrado em cinzas acumuladas
vermelho mofo
som mudo por entre as veias que se amarrotam.

[arfar]

vem soprar-me o voo por entre a escuridão
saltar do penhasco de olhos fechados e sorriso aberto
deixar-me ir na corrente sem medo do silêncio


[arfar]


puxa-me e leva-me a dançar sem sequer sairmos do mesmo sitio
faz-me dançar por entre o toque


[Pausa]


deslizas a mão do cabelo até à curva do pescoço
sinto-te como pedra de gelo que arrepia a alma
beijo sem ar
rasga-me o pensamento
acorda-me
acorda tudo aquilo que ainda é teu...

Não deixes que o sol nasça
quero ser por de sol eterno em ti
amanhecer ambíguo de noites tardias e suadas
de sorrisos partilhados em cigarros silenciosos de cama desfeita

[Arfar]


Deixa-me voar no teu peito...
como se o tempo não fosse
passado ou futuro inexistentes
presente apenas no momento em que explodem arco-íris em olhar demasiado presente na ausência.

Deixa-me marcar-te o corpo para que, mesmo no fim, não acabe.

[Silêncio]

Deixa-me não seguir... Usa o meu corpo e cala-me a mente...

[Silêncio]

Só hoje...
Deixa-me fazer de ti o meu casulo e das minhas asas o aconchego...
Em ti, só em ti...

[hiato]

foto retirada do google

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Comigo


Tirei do bolso a folha que havia um dia rasgado do teu caderno.

Desdobrei todos os quadradinhos onde te tinha colocado, um por um.

Não te vi nas palavras, nas linhas, nem entre elas. Não estavas.

Talvez tenhas voado com as asas que te colei na espinha. Talvez tenhas descoberto algo novo onde pousar os teus espaços.

Procurei um ponto de referência na ausência. Nada. Ninguém. Nenhum.

Sentei-me.
Horizonte sem cor.

Há uma brisa morna que passa por entre os cabelos que se colam nas costas desenhando curvas desmanchadas. Manchas de cor por entre o preto e branco que gravo na memória.

Espaços incertos. Indesejados. Contudo agradáveis.

Sem plano, sem espera. Fica à mercê de algo.

Pu-la sozinha. Por entre brechas de sons que não guarda no seu livro.

Porque sim, porque não, porque não sabe de facto... ou não sabe apenas o facto, um... nenhum.

Há dedos sem dono que brincam com desenhos alheios e tiram medidas incertas no vento.

Tempo de Nada. Ninguém.

Guardei-te assim em folha branca, que escolhi não dobrar, amarrotar apenas.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Pausa-me


raios no cabelo.
silêncio na chávena.
palavras no olhar.

Hoje vi uma libelinha, eu sei que não foi a primeira vez que isso aconteceu mas...

O sol adorna a pele pálida como agulha que fura tecido... ponto a ponto.

O cabelo voa ligeiramente dançando com o escasso vento.

Ele rega o jardim.
Ela vende.
Ele martela os sapatos.
Ela passeia as crianças.
Ele guarda.
Ela limpa.

Estão todos ocupados enquanto um lagarto azul e verde se tenta esconder por entre as sombras que escapam ao sol...

Amarelo, azul em pegadas suadas...

Vim ver-te na ausência da tua presença, vim ouvir-te em silêncio, olhar-te em conversa.

era gigante...

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ás Vezes...


Ás vezes esqueço-me do tom, som e compasso.

Esqueço-me do espaço, traço...

Esqueço-me da idade, dos cheiros, dos tempos, da vontade ou mesmo da verdade, e moldo tudo numa perspectiva sem dono, destino ou intuito...

Ás vezes esqueço-me que nem todos voam, que nem todos vêm a mesma cor, que nem todos sentem em algo o mesmo sabor...

Esqueço-me que o sol pode ser amarelo... laranja... vermelho... que a lua pode ser branca... azul... amarela...

Esqueço-me que o voo pode ser curto mas a queda longa. Que a onda pode ser pequena mas a espuma muita.

Esqueço os baús recheados de memórias e segredos, silenciosos e invisíveis.

Esqueço a boneca e a borboleta,

como andar,

como olhar,

como rir,

amar,

odiar,

chorar,

brincar...

Esqueço-me por entre tudo o que são pós de metamorfose[s]

foto de Misha Gordin

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Vazio


tinta da china na ponta do dedo

descai pelo corpo desenhando feridas

lama

cama

chuva

lençol


cravo na carne esperança

tentando que o peito não sangre, que a mente cale.


espaço

passo

laço desenlaçado de prenda errada

nada que aponta para tanto...


corpo gelado, com arranhões que não deixam marca...


preto e branco em nojo

despojo de segundos mecanizados


asa quebra por entre o vento... as pálpebras consomem-se por entre as gotas de chuva


ela cai sem chão em mão que a apare.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

100


Senti-me sem sentidos




Vazia




Repleta...




Incerta




Distante



Imagem



Cor




Solitária




Inconstante...




Amena




Deambulante.




Verão e Inverno




Cave e sótão...




Sol e Lua...




Nua




Aconchegada




Pouco mais que tudo em nada...




Eu, ou uma outra que vive no canto do olhar...




Assim, sem...

terça-feira, 7 de julho de 2009


grito


sem dor

sem medo


grito


esconde-se por entre os sorrisos

abraços

toques


grito aninhado num peito que explode


não há guerra

nem luta


serpenteia nas veias que aquecem

nos olhares

nas palavras


grito


estala na chuva

voa no vento

faísca no fogo


grito


em cada passo sereno por entre a calçada gasta se esconde

por entre tudo o que em cada um acontece

aninha-se compilando tanto que não é...


GRITO!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

souhait


[Suspiro]

Apetece,


por entre os poros escorre desejo... a conta gotas desliza pelo corpo...


pelo cabelo
pelos olhos
pela boca
pelo pescoço
pelos ombros...


Acaricia-a em tom caramelo achocolatado e escorre...


[Suspira... ]


O desejo aquece o peito e fá-la arfar
Rebola pela cama e amassa os lençóis...

quer sentir a presença na almofada
o calor no lado oposto da cama


Fogo que silenciosamente explode dentro de si


[Arfa]


Quer presença
Quer ter o corpo para colar à parede
Com o qual deslizar pelo chão
Quer sentir o toque...
O calor que funde num só...
Quer enterrar os dedos na pele
Morder os ombros
Puxar os cabelos
Perder o ar


...

Sentir...


Quer...


é vermelho laranja curvado na nuca
é amarelo fuschia rasgando o peito
é furacão aninhado nos lábios


e azul... azul no olhar cerrado que esconde de tudo o resto...

[Suspiro]

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Diferente


E assim ficou. Nadando em torno de círculos de areia.

sonha
recua
avança
saltita

céu
azul
azul
mar
cheiro a mar
grãos de areia
azul
ondas

Dança... Embala-se por entre o vento, brinca com os salpicos que a tentam alcançar e ri ao sabor desse som sem definição... um tom agudo, profundo, som...

o mar molhou-lhe os pés e sentiu-os enterrar na areia impedindo-a de rodopiar... e gostou... gostou que algo a fixa-se... pela primeira vez

sem rodopiar

sem saltitar

Sem círculos.


Diferente... foi um número diferente...

[A]penas que deslizam por entre asas

terça-feira, 16 de junho de 2009

Res Aliena


Escorregou da Lua.

Rebolou pelas estrelas até aterrar.

Descobriu não saber andar.
Descobriu não saber comer.
Descobriu não saber respirar, sorrir ou mesmo olhar.

Nem por isso se travou.
Seguiu.
Sentiu.
Provou.

Em espuma de incertezas caminhou buscando as interrogações das quais origem não sabia e das quais medo não sentia.

Pequena bailarina por entre uma verdade abstracta. De maneira exacta aprendeu a saltitar tudo o que no seu destino surgiu, ainda que sem o perceber.

[Espelho]

Onde estás?
Quem foste?
Quem és?
Quem serás?

Sinto falta de ti que não conheci, gosto de ti presente, da mesma forma que só tenho que agradecer ao que agora é passado.

[Noite]

Fogo escorre pelo pescoço em sentido contrário. Sopra ao ouvido estremeceres roucos. Molha os lábios e espalha calor. Roda um corpo contra a parede e impede-o de mexer. Olhares, apenas olhares por entre o resto.

[Suor]

Quem serás?
Onde estás?
Quem és?
Quem foste?

[Silêncio]

Reticentemente se aninha sobre si… olha as mãos e os seus desenhos, caminhos… serão sempre não mais que caminhos.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Mariposa


Som de nada no fundo do círculo.

Dançam rodeados de vento azulado lúcido.

Quem são?
Quem sou?

Silêncio pontiagudo rasga sons que rodeiam o limite do espaço.

Pára
Olha
Roda
Toca
Busca
Desespera

Sem saída….

Completamente sem saída…

Vejo-a no cume do raio. Aninhada. Assustada. E contudo… feliz.

Vi-a outrora sem chão, sem piso para marcar, sem caminho, sem noção… vi-a só e querendo manter-se só. Sabia que talvez pudesse ser mais, mas ficava. Ficava sempre. Vi-a pequenina… semente, sim, semente, observei de onde veio e onde está. Feliz.

Há dúvidas que pairam

[Sempre]

Pondera o final.
Matar o espaço.
Rasgar
Libertar as asas
Voar

Conseguirá voar?

Arrisca.
Rasga o casulo.
Vai.

Voa Borboleta…

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Passava...




Passava.
Leve brisa.
Suave fervor.
Passava.
Nascia nos lábios.
Pescoço,
Ombro,
Peito.
Lábios.
Passava.
Aroma a doçura.
Frescura etérea.
Passava em jeito passageiro de viajante apressado.
Aperta.
Abraça.
Agarra.


Foge em compasso melancólico.

Baixa os olhos… olha para trás… é seguida por nada, deixa que o vento lhe empurre o cabelo para a face e assim esconda a lágrima.

Passava.
Pequenos passeios desalinhados.
Semáforos intermitentes.
Sol escondido.
Folhas rasantes.
Sozinha.
Passava.

Mãos na algibeira.
Música.
Pensamentos apressados, ruídos, amargos, destoados, solitários…
Passava pela vida hoje em tom de turquesa e ao compasso da chuva que não cai do céu.
Ping_Ping_Ping_Ping…

quarta-feira, 11 de março de 2009

Desiderio


Corrói.

Amarra.

Estilhaça.

Rompe.

Estala!

Há uma luz escura que envolve o momento.

Cama mexida e nua ocupa o fundo de uma divisão.

Fogo. Calor. Suor. Sexo!

Há um caminho indefinido que chama, não é mão, não é voz, corpo, desejo reflectido no olhar.

Espinha amarrada ao ventre em borboletas, nuca inquieta, pele esquentada.

Quero.

Toque. Enlace. Quebra. Gosto. Roda. Sentir.

Faísca. A espinha caminha mecanicamente nessa direcção.

Leva-me. Arranca-me a mim...

Abandona o mundo e leva-me em silêncios que sussurram suspiros, faz-me tua em estremeceres suados.

O corpo evapora contra a parede fria. O peito arfa de encontro ao meu pescoço.

Não quero ver-te, apenas sentir-te.

Quero comer-te a boca em colheradas fartas, quero cravar em ti as unhas até que rompam a pele.

Quero-te em remoinhos aninhados que adivinham furacões.

Em mim, sobre, em torno, dentro, fora.

Rasga-me a alma e amassa-me o desejo...

Mata-me em voo de borboleta com asa queimada...



Sim?